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sexta-feira, 2 de março de 2007

Prazer de brincar


A pessoa que mais te dá atenção, por breve instantes, disse-te que devíamos ser o mais parecidos com as crianças. Pular e correr numa seara e sentir nas mãos a suavidade das espigas, ainda frescas e acabadas de nascer, dar beijinhos tímidos na ponta dos lábios e cair para trás a rir, jogar às escondidas e gritar alto "apanhei-te", dormir tão tranquilamente que não sabes bem se o que é um sonho ou a realidade, pedir-te que me contes outra vez aquela história que sempre me fez sonhar... a história de sete ratos que viviam numa bota, eles também comiam e arrumavam a casa e liam livros, eram ratos alegres e de olhos grandes... Não tenhas vergonha de nada, dizes. As crianças não têm vergonha. Sorri como elas. Dá carinho e faz um gesto amoroso como elas, como se ninguém te estivesse a ver. Sim, suja-te na terra, sim, suja a roupa com erva e resto de tomate que colheste no campo... como foste feliz podes sê-lo sempre, nunca te esqueças, diverte-te como uma criança...
Assim, puxaste o meu braço e levaste-me para onde eu não esperava. No meio da multidão fizemos milhares de caretas e fugias de mim e escondias-te, e eu encontrava-te e gritávamos bem alto um para o outro como duas crianças, e nesses encontrões pude sorrir como já não o fazia há muito tempo, talvez desde criança... fizeste-me sonhar e não sabes. Agarraste a minha mão e eu fui atrás de ti, e foi mágico. Aquilo que eu sempre quis fazer com alguém e nunca fiz: brincar como quando era criança...


30 Outubro 2006



















Contaste-me tantas coisas que preferia não saber.
Olhaste-me nos olhos e começaste a falar. Que o teu nome era Guida e que o teu maior sonho, desde pequenina, era teres um quarto com janela. Provinhas de uma família pobre e a tua casa era um moinho. Foi lá que nasceste. A tua mãe fugia às escondidas, por entre milheirais, abraçava o teu pai e foi nesse momento, sob o pó da farinha e grãos de trigo ou outros cereais, por meio desse amor, que foste concebida. Tens muitos irmãos.
O teu pai gostava do teu cabelo comprido percorrido pelo vento e que vestisses camisolas de gola alta e calças de ganga. Sempre que podias levavas-lhe rebuçados, ele adorava rebuçados.
Desde que ele desapareceu que o imaginas sempre a chegar, estejas onde estiveres.
Depois de saberes que morrera que nunca mais conseguiste comer sem o pensamento de que ele "terá morrido à fome" e, assim, paras de comer...
Não soube o que te dizer. O que se diz numa situação destas?

04 Outubro 2006

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