quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Está-se a fingir muito bem.
Finge-se quase até ao esquecimento.
Há paisagens, ruas, cinemas, amores, dinheiro,
pensamentos, palavras, estações do ano
e obras de arte.

Diz-se: a vida.

Ou: o tempo.

E um dia abre-se o livro
e vê-se de novo a fotografia.
E já não se recomeça a leitura no mesmo ponto.

O que se roubou foi o tempo,
sim, mas não naquele primeiro sentido suposto.
A antiquíssima imagem fixa
serve para se roubar ao tempo a sua qualidade de perdão.
Porque a idade não ensina a anuência aos bons
e fáceis sentimentos.
A idade é: cada vez mais atenção.
Só te resta isso, caminhador:o perigo.
O perigo que é o conhecimento,
o conhecimento ganho na atenção.
Um homem que conquistou a sua idade
não pára diante da fotografia antiga
para se comover e murmurar:
a mãe com o seu filho ou o filho com a sua mãe.
Ele pensa: quem são?
o que fazem um ao outro?
Ele ouve:vou morrer, e vou deixar-vos descansados.
E ouve a sua própria voz:então morra.
E as mãos inocentes.
De uma delas sabe que se moveu
como se agarrasse um punhal— a pequena mão inocente registada com oito anos.
Descanso?
Mas isso conhecia ela bem que seria impossível.
O que ela dizia era assim:
morro para que tu, tu, tu,
não tenhas nenhuma espécie de descanso.
Um pouco mais, um pouco mais— é para isso que as imagens são imóveis.
Tu próprio não és uma criatura móvel,
a menos que fales em atenção,em profundidade.
Desce àquilo em que te encontras imóvel.
Mas em vez disso saímos para a rua,
à procura dos velhos companheiros:
os que se vão suicidar,
os que se encontram à entrada do seu irrevogável romance de esquizofrenia,
os que de longe escreverão uma carta
pedindo para os ajudarmos a virem morrer nesta cidade branca
que, do outro lado,
quando se está com o fígado desfeito e a cabeça a tremer,
a gente imagina metaforicamente aérea,
varrida por ventos puros.
Saímos em busca dos bêbados.
Pretende-se a ilusão de espaços dinâmicos,
figuras que se propaguem através deles,
o empolgante cinetismo das visões.
E que haja tempo, o tempo, o tempo.
Que as coisas avancem,
desfazendo os nós ferozes onde a angústia se concentrou.
Uma semana de bebedeira ininterrupta—
e aparecem as amiguinhas,
vamos todos de um lado para outro,
bando apocalíptico,
animado por um furor malsão, uma alegria brutal.
Arranjamos um quarto,
despimo-nos,
e depois estamos noutro quarto,
e estamos a despir-nos,
e de novo a fazer amor,
quatro, seis, oito em cima do tapete —
o terrível milagre de uma alucinação de pernas,
braços, seios, mãos, sexos, coxas, cabeças, vestidos, camisas.
E uma madrugada, só,
vagueando pelos cais desertos,
no meio da luz suja e trémula,
ressurge o horror da inteligência.
Vê-se tudo, e seria preciso morrer.
E então volta-se para casa,
procura-se a fotografia no livro,
no fundo de uma gaveta,
e está lá isto: o tempo não existe.
Seria possível uma pequena piedade por nós próprios,
mas somos tão pouco sentimentais,
nós.
Não gostamos da piedade.
Descobre-se que a mãe não era para piedades.
A perversa cabeça infantilentra nela como um punhal,
e a mãe, sem conhecer o peso do braço do cavalheiro,
olha o espaço, de lado, neutra,
ligada àquela espécie de enigmático crime,
à obscura vingança
no outro lado da sua profecia do descanso para eles, para ele, ele— para ti.
Decifrando a metáfora,
percorrendo os caminhos para descobrir as deslocações das partes
e, assim, recompor a verdade do texto— a fotografia, a realidade, a vida— ele descobre que toda a gente tem as mãos cheias
de sangue.
Que nada foi cria
do
que o não fosse no abismo das destruições.
E entendendo enfim a linguagem das fotografias,
ele assume a sua desgraça,
e a insignificância dela,
e supõe poder avançar,
liberto,
para a sua própria morte,
algures num tempo.

Herberto Helder

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Apenas Conhecemos Fragmentos dos Outros




Quando te encontras na base de um importante maciço montanhoso, estás longe de conhecer toda a sua diversidade, não tens nenhuma ideia das alturas que se ergueram por trás do seu cimo ou por trás daquele que te parece ser o cimo, não suspeitas nem o perigo dos abismos nem os confortáveis assentos ocultos entre os rochedos. É apenas se sobes e se persegues o teu caminho que se revelam pouco a pouco a teus olhos os segredos da montanha, alguns que esperavas, outros que te surpreendem, uns essenciais, outros insignificantes, tudo isso sempre e unicamente em função da direcção que tomares; e nunca te revelarão todas. O mesmo acontece quando te encontras diante de uma alma humana.
Aquilo que se te oferece ao primeiro olhar, por mais perto que estejas, está longe de ser a verdade e certamente nunca é toda a verdade. É apenas no decurso do caminho, quando os teus olhos se tornam mais penetrantes e nenhuma bruma perturba o teu olhar, que a natureza íntima dessa alma se revela a pouco a pouco e sempre por fragmentos. Aqui é a mesma coisa: à medida que te afastas da zona explorada, toda a diversidade que encontraste no caminho se esbate como um sonho, e quando te voltas uma última vez antes de te afastares, vês apenas de novo esse maciço que te surgia falsamente como muito simples, e esse cimo que não era o único que existia. Apenas a direcção é realidade; o objectivo é sempre ficção, mesmo quando alcançado - sobretudo neste caso.

Arthur Schnitzler, in 'Observação do Homem'


Por uma vez conta como o corpo se ajusta à superfície das tuas palavras. Fala de um depois anterior, desse sono demente na fissura da luz; do violento voo ou ferida cíclica, a ausência excedendo-se na pele quando a desoras perfumas minhas mãos. Estende-se o calor aos lábios, o verão simula a duração no verso, circula a água, vigorosa, no fundo do poço até desaparecer na cama muda. Nada é o que parece, lembra-se o que se esquece e eu digo os dedos descalços dissolvem em tua boca o mel à flor dos destroços. Olha-me: deita o olhar em meu vestido, tira-o num gesto ébrio e precipitado como a um prisioneiro,os peixes sobem lestos no lago imoderado e a noite volta, lenta, adormecida. Dou-te o que não tenho – a história de um rio exultante a explodir na boca em versão romântica, poema sem trágicos sulcos ou fala completa. E tu, tu dás-me o que sou: metáfora doendo-se alto onde acaba o texto.




Ana Marques Gastão


In Nós/Nudos, Gótica, 2004







Estou a oscilar, a agitar-me, em desequilíbrio; de um lado o desejo, já com sabor a não-vida, do outro a noção do fim. Paira a ameaça sobre o corpo-depois-do-fulgor. Não há senão memória desfibrada incisiva o medo desoculto de que a serpente me engula com a sua boca desproporcionada.


Acordo tantas vezes de madrugada, o meu coração é uma planície deserta, coração dilacerado desesperado inchado cordeiro manso ou feroz de olhos furados. Não te deites docilmente, vão roubar-te tudo, o ladrão virá de noite com as suas garras venenosas e dir-te-á


«Não ames!»



Não deixes, não deixes, expulsa-o, extirpar-te-á o fígado e ficarás o que não és e és agora, não o que fomos e somos hoje, o mistério não acontecerá como o milagre não aconteceu, o depois evitará o antes e esse será o fim, a treva, os dedos sem mãos, silêncio de eterna neve.


Ana Marques Gastão

terça-feira, 11 de novembro de 2008

mês colorido no cais frio



mês de verdadeiras emoções. rasganço da mana. cansei de ser sexy no teatro sá da bandeira. x-wife em coimbra.

e o filme...






Desejo é uma das palavras em Wong Kar-Wai. A outra é desencontro. O que se ouve resume-se assim: a música é uma personagem, as palavras sucedem-se aparentemente banais mas são como poemas e o desejo é sempre mudo. Em momento algum se ouve uma personagem confessar a outra o seu desejo. As poucas confissões são-nos ditas em voz off e nunca são lineares. As personagens de Wong vão encontrando o amor mas são sempre inábeis, mesmo quando parecem fatais. Mas o que importa, o que marca, é o desejo. O desejo é uma questão de distância. E Wong enfatiza essa certeza em cada gesto de cada personagem. O modo como Wong filma torna o desejo palpável, de tão denso. Os gestos das personagens são contidos, carregam toda a consciência de um desejo reprimido. Não há uma declaração de amor. Não há um único beijo. E é por isso, muito mais do que por todas as distracções que têm sido ditas, que o tão esperado My Blueberry Nights será sempre um marco para Wong Kar-Wai. Para que percebam o que pode um beijo.








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