sexta-feira, 11 de junho de 2010




Escrita Criativa

Rasgos do Portefólio Quotidiano em nome


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I
Tom

Conheço bem os meandros dos aeroportos, as salas de espera, o sítio exacto das casas de banho, quem está do outro lado do balcão, as lojas de conveniência, onde compro sempre sacos de m&m´s e um isqueiro..
O senhor desta loja não distingue algumAs cores, vou comprar um isqueiro; desta vez verde, digo a cor e só depois sei se sigo o plano b, ou se terei de apontar, para o cliente atrás de mim não perceber o embaraço e rubor do empregado, e calmamente indico o segundo, a contar da direita, por favor, lá me faz chegar, orgulhoso, o isqueiro, o amarelo entregou-mo num ápice!, pisco-lhe imaginariamente o olho com cumplicidade em câmara lenta, de missão cumprida.
(São tantas coisas que as pessoas não dizem, mas todo o corpo fala…)
Aconteceu sempre com a naturalidade de hoje. Saio de sorriso aberto.
Passo para a ala dos perfumes. Dezenas de caixas em réplica. Tenho sete cartões esguios para distinguir odores. Esqueço-me do que me levou ali: apanhar o avião. Pareço ter pela frente todo o tempo do mundo, até que no altifalante oiço o meu nome. Corro. Ali estava o avião cheio, dezenas de rostos virados para mim, em fila, certinhos, como os isqueiros, acusavam-me, esperavam.
Da próxima vez vou experimentar o branco, que estará na quarta fila, o segundo a contar da direita, por favor, junto ao amarelo, logo ao lado da prateleira dos perfumes, passo a passo, saberei todas As cores.




V
Álvaro



Da primeira vez a noite foi pacífica e quente. Talvez fruto da idade, tão novinho, eu ansiava aquele dia como nenhum outro. E porque raio não consigo dormir hoje? Nem bebi café! Na outra, a estas horas, ria com os tios de longe, pela noite dentro, adormeci. Vou lá fora ao alpendre. O som dos grilos lembra-me o Verão. O primeiro foi no Outono. Dias pequenos. Folhas caídas. Correu bem, parece-me. Mas que falta de entusiasmo é esta, Álvaro? Ser adulto. Inércia. Que parece ser bombeada para dentro de nós, e pronto, já está, deixas de estar inquieto, sem que te apercebas já estás na casa dos quarenta, amigo da rotina trabalho-casa-sopa-chinelos, seguida da breve estupidificação absorvida pelos olhos, frente ao televisor, dorme bem e até amanhã. Depois, nos rasgos – tão raros – de iniciativa, surgem estas pequenas possibilidades, um segundo casamento, este agarrei-o e hoje, no dia antes de acontecer, surge-me em forma de insónia. Também vai correr bem, parece-me. Não é isto a vida? Começar e acabar?





VII
Andrea


O dia estava solarengo, quente demais. As crianças assobiavam, comiam doces de digestão fácil, aguardando o autocarro que as levava dali para as suas origens. Do outro lado, um bar rodeado de homens que finalmente terminavam os seus ofícios, brindando esse instante com uma cerveja ou sumo. A disposição das cadeiras não era proporcional ao espaço envolvente, pelo contrário, todo aquele espaço era abandono. A senhora gorda, que servia ao balcão, dava calor ao vazio circundante. As falas, os risos das crianças, ao longe, permitiam-me concentração para a leitura. Apenas uma mesa estava ocupada. De repente, entra para dentro daquele albergue alguém que, desde logo, despertou a minha atenção. Era impossível não reparar. A senhora sentou-se mesmo à minha frente. Tinha olhos cor de mel mas amargos na expressão. O corpo controlava a tensão. As malas continham roupas descuidadamente colocadas, onde se viam trapos a sair. Mas quem a observasse, do lado de lá da janela, diria que aquela cigana aguardava calmamente o autocarro. Trocamos de olhares. Sorri timidamente. Ela fixou os meus olhos e não sei explicar o que me invadiu. Pensei o que todos pensariam: que aquela senhora aguardava a hora de partida para um lugar qualquer, só que carregava um olhar entristecido, no corpo de uma mulher lutadora e forte. O brilho daquele olhar esmorecia e apagava-se, dando lugar a lágrimas que tranquilamente corriam pelo seu rosto. O rosto sem expressão, o corpo parado, e o único movimento era gerado pelo brotar daquela lágrima. Num ímpeto, dirige-se para o telefone e diz “sim, vem-me buscar, estou à tua espera”. Aqui, fiquei atordoada e expectante, para num segundo instante ouvir aquela cigana falar para longe, para alguém que eu não via mas a quem ela queria ofender e desabafar. Terá sentido na minha presença a coragem que lhe faltava, cúmplice no desabafo, mesmo sem me conhecer de lado algum, podia dizer o que lhe destroçava o coração? Assim disse: “meu Senhor, ele não vai ficar com os meus filhos, eles são meus.” Quando observo que esta cigana tinha o braço com sangue a escorrer, tenho que sair.
Ainda agora penso naquele olhar.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Na última reunião de condomínio, que decorria na ampla garagem do prédio, trazia a música tão alta que nem reparou naquele aglomerado humano. Um homem irrompe do grupo a gesticular “baixe o som!”.

Mais um dia, terminado em frenesim

Já não sabe os detalhes das actividades para amanhã, agarra na agenda antes de sair do carro, revê os afazeres que lhe roubam o tempo para o voluntariado no banco alimentar, adiado há um ano, para a visita ao pai que está em lista de espera, o tempo que deixou de ter porque assim tem sempre tempo para adiar o que dói. Essa atitude tão aplaudida por todos, quanto mais fizeres melhor, defeito aceitável para os amigos, valorizado no mundo do trabalho, o que acaba por escassear é apenas a coragem, sabe-o bem.

Eva corrige o olhar levando o rímel, a mala dos mil processos vai subir com ela, o som alto abandona a garagem e fica aprisionado no carro, diz a todos boa noite, e a reunião prossegue.

andrea

Aos mais destemidos, ouvia-lhes a previsão e o cálculo na frase “da próxima vez já não estavam cá”. Aos outros. A esses. Via-lhes no olhar as palavras, em desespero suspenso, no piso dos acamados. Ninguém sabia quem ela era, o que a levava a visitá-los todas as manhãs de sábado.
Era melhor morrer a viver assim, ressoava nos corredores.
A profundeza da afirmação ganhou impacto naquele cubículo, rodeada de cadeiras verdes e revistas sobre a mesa, à espera do carimbo no próximo exame médico, analisa friamente as possibilidades.
A avó dissera-lhe, em quatro anos, sempre que se despedia dela, que era a última vez, e nesse dia acertou.
(queria ter a certeza dela)
É jovem. Vive refém de hospitais, exames, salas de espera, rostos cinzentos, o dia da notícia, a irmã a chorar, a filha inês só tem três anos, as viagens por fazer, o dia de amanhã e todos os tratamentos ainda sem data e fim.
Hoje em dia há cura para tudo, dizem-lhe. E ela não quer saber.
Dirá à senhora do carimbo que é a última vez, e tal como a avó, acertará.

andrea

A extremidade dos cinco dedos não lhe adivinha a forma.
Encontro-lhe pequenas saliências, rodeadas de minúsculos poros, um ponto fundo que une o princípio e o fim.
Agarro-a na palma da mão. Afigura-se-me maior. Rodopio-a suavemente para a adivinhar. Transborda as linhas, quase chega à ponta dos dedos, fica rente às extremidades. Não a agarro inteira.
Atrevo-me com as duas mãos. Encaixe perfeito. Tenho a sensação que guardo, entre os dedos, um segredo inconfessável, redondo, esponjoso. O que a torna viva.
Elevo os dedos ao nariz. Hummmmm! Que maravilha! Que cheiro a terra, doce, a dias pequenos, a chuva, a pequenos-almoços com torradas e o que espremo de ti!

andrea

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

há 4 anos atrás era assim... coisas com sabor a ano velho

Bom!
Há quem diga: "por que raio" desejamos bom ano a quem não conhecemos de lado algum?".
Há quem diga que é uma parvoíce mas a verdade é que até a personagem mais contida, reservada ou antipática, espalha, aqui e ali, palavras e olhares de esperança e mundo novo, dizendo em voz tímida à senhora da loja de decoração "um bom ano para si".
Haverá neste comportamento o desejo de exteriorizar que está tudo tão mal que temos que espalhar a alegria que não sentimos ("a ver se isto melhora")? Desejar aos outros aquilo que queremos para nós? Desejar para ouvirmos a retribuição ainda mais calorosa? Ou fica bem dizê-lo?
Ou então por simpatia? Alegria? Boa disposição? Esperança? Desejo de melhoria para nós, para os outros, para o País e para o Mundo? Todos cheios de bons sentimentos...
Basta sair de casa para apreciar que muitos deambulam de cabeça baixa, questionando as pedras da calçada "Como vai ser? Estou perdido". Por si passam outros tantos. Uns de gabardina Massimo Dutti outros com um casaco oferecido pela vizinha do 4ªandar (que sabe que vivemos em miséria extrema)...
Esta consciência social, senhora! Todos dizem o mesmo e ninguém (incluindo eu) faz nada!
O nosso quintalinho e jardinzinho arranjado (para quem o tem), a dispensa semanalmente abastecida (para quem come), o carro estacionadinho, de preferência à porta de casa (para quem tem), os filhos que gritam e que de dia para dia, de tão "domesticados" e ensinados "que isso é feio" deixam de gritar. É um silêncio agradável para os vizinhos e para em qualquer momento, estão sentados à mesa do café e alguém histérico lhes diz "Estás tão bem comportadinho Joãzinho Maria!". Os pais sorriem contentes ao comportamento (artificial) do seu filho prodígio. Já sabe estar sentado à mesa sem falar. Nunca fala. "Que bom, aprendeu a lição", pensam os pais. Esquecendo-se, como diria alguém" as crianças têm os olhos nas pontas dos dedos". É que hoje em dia as crianças não se sujam, "é feio". (Quanto mais uma crianças estiver suja mais simboliza que brincou, descobriu, conviveu e cresceu! não?)
É verdade, falávamos do ano novo.
Perguntam-me e eu digo "Novo ano, a vida na mesma". Mas é isso mesmo, para quê exteriorizar imensa felicidade se a única coisa que mudou foi um dia no calendário?
Eu sei. Eu sei que até vale a pena imaginarmos que está tudo magnífico e que tudo correrá como nos desejam (naquelas mensagens todas iguais, cópia da cópia do outro que nos enviou e que envio com o nome de outro porque nem reparei que trazia nome de outro no fim, e que até tem umas palavras engraçadas e decidimos enviar à extensa lista de pessoas a quem durante o ano não dissemos patavina).
A verdade é que vem um novo ano e muitos problemas existem do ano que passou. Os quais ainda não resolvemos e adiamos, adiamos, à espera que se resolvam por si mesmos!!! À espera que se dissolvam como uma bola de sabão que em contacto com a atmosfera, instantaneamente desaparece! Que ilusão...
No outro dia alguém disse que não gosta de nada com hora marcada. Eu concordo.


Um bom Ano para todos! :)

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