terça-feira, 16 de setembro de 2008




Cada momento passado juntos

Era uma celebração, uma Epifania,

Nós os dois sozinhos no mundo.

Tu, tão audaz, mais leve que uma asa,

Descias numa vertigem a escada

A dois e dois, arrastando-me

Através de húmidos lilases, aos teus domínios

Do outro lado, passando o espelho.

Pela noite concedias-me o favor,

Abriam-se as portas do altar

E a nossa nudez iluminava o escuro

À medida que genufletia. E ao acordar

Eu diria “Abençoada sejas!”

Sabendo como pretenciosa era a benção:

Dormias, os lilases tombavam da mesa

Para tocar-te as pálpebras num universo de azul,

E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras

Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.

Rios palpitantes por dentro do cristal,

A montanha assomando na bruma, mar enfurecido,

E tu com a bola de cristal nas mãos,

Sentada num trono enquanto dormes,

— Deus do céu! — tu pertences-me.

Acordas para transfigurar

As palavras de todos os dias,

E o teu discorrer transbordante

De poder revela na palavra “tu”o seu novo sentido: significa “rei”.

Simples objectos transfigurados,

Tudo — a bacia, o jarro —, tudo

Uma vez de sentinela entre nós

Se torna límpido, laminar e firme.

Íamos, sem saber para onde,

Perseguidos por miragens de cidades

Derrotadas construídas no milagre,

Hortelã pimenta aos nossos pés,

As aves acompanhando-nos o voo,

E no rio os peixes á procura da nascente;

O céu, a nós se abrindo.

Porque o destino seguia-nos o rastro

Como um louco com uma navalha na mão.



Arsesii Tarkovskii

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Este Verão ensina-me
a amar as minhas cicatrizes
a enfeitar-me com marcas de estrangulamento no pescoço

Este Verão ensina-me
a fechar à chave a amargura e fico
bem roliça e anafada pareço bem tratada

Este Verão ensina-me
a gritar o bel canto

Este Verão ensina-me
que a solidão descansa
e cresce numa mão

Este Verão ensina-me
a não confundir um corpo disponível
com o desejo de felicidade

Este Verão ensina-me
a ser para cada pedra um espelho de água

Este Verão ensina-me
a amar grandes bolas de sabão e pequenas
antes de rebentarem

Este Verão ensina-me
que tudo sem nós
por si continua

Este Verão ensina-me
um rosto gelado feliz

Este Verão ensina-me
tenho que ser eu a bater no tambor
quando quiser dançar

este Verão ensina-me
a ser sem felicidade sem tristeza por uns
segundos aliada de Deus

Este Verão ensina-me
a acordar de manhã. Grata. Sozinha.

Este Verão ensina-me
que a folha do limoeiro só deita cheiro
quando a desfazemos entre os dedos.

Ulla Hahn

quinta-feira, 21 de agosto de 2008


“Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e tu por dentro de mim...”



O rabisco comum do início de um labirinto. Cor tem e alma.
Apresento-te este labirinto.
O pano de fundo é azul vibrante e a música demora na força de um abraço.
A partida é aqui. Os pés encontram-se soterrados na areia macia, atrevida. Como naquela manhã. Pergunto-te porque me queres. Os teus olhos estão vendados pela fita vermelha – o teu amuleto e agarras-me na despedida fugaz. Preferes falar. Não sabes o sentido. E qual é?
(Possivelmente perder-me-ia mais vezes nos galhos da insensatez que nos da hipocrisia. E da loucura, acrescentas)
Porque não sei o que dizer, abraço-te. O caminho é púrpura e, através dele, encontras as sensações mundanas, as fantasias enigmáticas, travessias-luz e galhos que só incomodarão a pele superficialmente. Desalinham-se as calçadas gastas pelo tempo. A sobriedade das árvores. A imponência da natureza. Os sentidos errados. Mas sentidos.
Em frente. Ou ali? Olhas-me sem pestanejar. Onde é o lugar? Encontraremos o meio? A forma? O cheiro?

E as estrelas? Leva-las na mochila?

Não passamos de cascalho, prestes a secar e a desaparecer. E as flores renascem, parem do solo árido.

E tu, indeciso. Direita? Esquerda? Bifurcam-se interesses.

Qual de nós perdoa?

No teu olhar vejo a certeza que quero ter. O brilho que derrama. E clama por compreensão, querer partilhar. Poisas as palavras no chão. Fechas o livro. Perdes o jeito. Encolhes os ombros. Sorris perante a imensidão do céu. E sou eu. A tua voz. As tuas palavras. O entoar com que as fazes bailarinas na tua boca. Pede-me a mão ao coração. Assustado. Perplexo. Cercado. Já perdido? Que interessa… O atalho nunca te serviu. Sopros inquietos. Tremem as tuas pernas. Tens frio. Onde dormes esta noite? Junto ao rio de águas-tempestade? Construirás abrigo para te salvar? Ou perecerás sem nada fazer?

Os remoinhos do ar figuram no vento como traços vermelhos espirais.
Saltitas no tracejado de um percurso-dor. Desenhas na minha mão um círculo e dizes para lhe dar os tons que quiser. Os tons do mar. As escadas polvilhadas de areia muito branca. O olhar embriagado. O sol quente de Verão. O entusiasmo. As leituras do contador de histórias, de pernas cruzadas e moleskine na mão direita, seguram a conjunção de pensamentos mais incríveis que alguma vez ouvira. E a ternura intacta? Como se desenha?


Pararam perto do mar, ou na rua que não estava fechada porque nenhuma rua se fecha para o amor. O tempo que apetecer. Sem coerência. Sem que entendas os gestos, a forma como se aproxima e fala
Puxa o mundo para ele
E eu ali
Expectante
“O que virá a seguir?”
Um ardor ténue trespassa-me o corpo
O tempo a passar
E nós a acharmos que ele não passa
Ou que então espera por nós
As botinhas castanhas
De cabelo despenteado e mochila às costas
E o nome?...

Sublime

Lindo.

O olhar
Quando lê o que escreve
E vocifera como ninguém
A alma nas palavras
Aplaudo-o sem que saiba

O carinho
Tanta coisa que não sei explicar


“E se se esgota?”

“Esgotar-te para te querer ainda mais”

sexta-feira, 11 de julho de 2008



“Já se disse que o silêncio era uma força; num sentido completamente diferente, ele é uma força, e terrível, à disposição daqueles que são amados. Uma força que aumenta a ansiedade de quem espera. Nada convida tanto alguém a aproximar-se de um ser como o que dele o separa, e que barreira existe mais intransponível que o silêncio? Já se disse também que o silêncio era um suplício, e capaz de enlouquecer aquele que nas prisões a ele estava obrigado. Mas que suplício - maior que o de guardar silêncio - é o de sofrer o silêncio de quem se ama! Robert dizia de si para si: «Que estará ela a fazer para estar assim calada? Estará por certo a enganar-me com outros...» Dizia ainda: «Que fiz para ela estar assim calada? Provavelmente odeia-me, e para sempre.» E acusava-se a si mesmo. Assim, com efeito, o silêncio o punha louco de ciúme e de remorso. De resto, mais cruel que o das prisões, tal silêncio é ele mesmo uma prisão. Uma clausura imaterial, sem dúvida, mas impenetrável, aquela fatia interposta de atmosfera vazia, mas que os raios visuais do abandonado não podem atravessar. Haverá luz mais terrível que o silêncio, que não nos mostra uma ausente, mas mil, e cada uma delas entregando-se a alguma outra traição? Às vezes, numa brusca distensão, Robert acreditava que esse silêncio iria cessar daí a pouco, que a esperada carta iria chegar. Via-a a chegar, espiava cada ruído, a sua sede estava já saciada, murmurava: «A carta! A carta!» Depois de ter assim entrevisto um oásis imaginário de ternura tornava a dar consigo patinhando no deserto real do silêncio sem fim.Sofria adiantadamente todas as dores, sem esquecer nenhuma, de um rompimento que em outras ocasiões julgava poder evitar, como aquelas pessoas que liquidam todos os seus assuntos na mira de uma expatriação que não irá efectuar-se, e cujo pensamento, que já não sabe onde deverá situar-se no dia seguinte se agita momentaneamente, despegado delas, semelhante a um coração que se arranca a um doente e que continua a bater, separado do resto do corpo. Em todo o caso, esta esperança de que a amante regressaria dava-lhe coragem para perseverar no rompimento, tal como a crença de poder regressar vivo do combate ajuda a enfrentar a morte. E como o hábito é, de todas as plantas humanas, aquela que menos necessidade tem para viver de um solo rico de alimento, e a primeira a aparecer no aparentemente mais desolado dos rochedos, talvez começando por praticar o rompimento a fingir acabasse por se lhe acostumar sinceramente. Mas a incerteza alimentava nele um estado que, ligado à recordação daquela mulher, se assemelhava ao amor. Forçava-se contudo a não lhe escrever (pensando acaso que o tormento era menos cruel de viver sem a amante que com ela em certas condições, ou que, depois da maneira como se haviam separado, esperar as suas desculpas era necessário para que ela conservasse o que acreditava que ela sentia por ele, senão de amor, pelo menos de estima e respeito). “
MARCEL PROUST, EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO



museu picasso.

barcelona.

o quadro inacabado.

o olhar que me fez chorar.

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