sábado, 3 de março de 2007

Leila NAvarro

"Nós nascemos para ser felizes. Mas para isso é preciso ter objectivos, sonhos, metas e participar na vida. Nada muda se nós não mudarmos. E eu mudo pelas minhas atitudes", sublinha. É frequente no meio empresarial a postura errada "de quem reclama, critica e busca o culpado", diz. "Mas quem faz a diferença é aquele que se pergunta o que pode fazer para mudar esse jogo".

24 de Fevereiro de 2007




O coração dispara....BOOM!!!


02 Fevereiro 2007


Em cada experiência que vivo sei que, a partir dali, tudo pode mudar.
Um novo cheiro ou um simples toque trazem com eles: um novo desejo ou uma nova mudança ou um novo acaso. E ainda bem que é assim. Não o suportaria doutra forma.
Constrói-nos ter estes momentos incrivelmente saborosos. Enriquece-nos. Não me imagino sem esta imprevisível magia.

Embalou-nos o mar e quis ser ele a nossa companhia durante estes dias.
Não nos pediu permissão e nós não nos importamos de o ter junto a nós.

Quis a vida reservar-nos esta surpresa. Acredito que quem a criou fomos unicamente nós, não podia ser diferente. Somos seres demasiado especiais.

Corremos rápido contra o vento, qual atrito de caminhos desconhecidos…
No porta-luvas dela, uma garrafa de whisky, cerveja e vinho do porto. Malas feitas com carinho e à pressa. Ficou tanto por trazer mas não tem importância.
Esperamos debaixo de um túnel muito escuro e dezenas de carros não se adivinhavam ser o teu. Isto é apenas o princípio. Não prevejo dissecá-lo.
Chegamos. Já esperavam por nós amigos que amo. Amigos e abraços numa rua movimentada e apertada.
Despimos os carros das malas, todas diferentes, que continham parte da nossa imaginação, mas em objectos: comida, livros, música, cachecóis, laranjas, chocolates, uma viola, uma prancha de bodyboard, mil objectos de que dependemos e dezenas de coisas que gostamos e nós dão prazer…
As muitas mãos e força levaram tudo para cima. A entrada da residencial tinha um encanto especial. Talvez pelo brilho das luzes e bolas gigantes penduradas numa árvore artificial e verde. Uma entrada ampla e sofás castanhos.
Ninguém para nos receber, fez com que aquele espaço se tornasse de imediato a nossa nova casa. Tudo o que se seguiu era imprevisível: surreal.
Abraços fortes, corpos elevados no ar pela saudade, mesa cheia de coisas boas e uma varanda que nos dava a sensação de estarmos em contacto com o mundo inteiro. O mar muito perto e uma praça agitada cheia de cor, odores fortes e magia. Já tinha estado ali mas nada me parecia igual.
Rapidamente nos unimos em redor de uma mesa. O cozinheiro de serviço presenteou-nos com sábia culinária, bom gosto, requinte e muito carinho. Nunca me importei de esperar. Vale sempre a pena esperar. Demora tempo mas é um tempo preciso para que, quando gentilmente nos serve, possa ouvir um “huummm” em uníssono! Congratulamos-te e eu já tinha saudades tuas. É bom falar de ti. Tu mereces.
A Ana arrumava cuidadosamente tudo o que parecia fora de ordem e que permitisse dar àquele espaço um ar familiar e de aconchego. Rapidamente o tornamos nosso. Uma guitarra dava música à alma. Copos começam a tilintar e oiço brindes ao amor e ao momento! Momentos de encontro, e que em breve, serão de saudade! Mas não pensamos nisso. Vamos apenas vivê-lo…

Espalho os pensamentos em cima deste tapete e escolho um. Os restantes são banais e não te fariam, sequer, sentir o doce e deslumbrante, intenso sabor, do que eu e eles partilhamos. O que é pena. Era tão bom que todos o sentissem como nós sentimos. Porque eu sei-o de cor. Não sei o que seria sem este poder imaginativo. Escrevo isto para me dispersar e abstrair daqueles instantes… Porque não sei descrevê-los? Porque os descreveria de forma corriqueira? Eles merecem ser recordados e não descritos. A não ser que lhes dês a tua magia de olhar tudo assim: de forma apaixonada.
Poderei escrever o que não vivi? Sim.
Poderei escrever o que não senti? Não.
Perdemos noção de tudo.

O arroz em breve teria com ele marisco variado, tão docemente cozinhado. Em redor da mesa, os olhares tornavam-se mais cúmplices e falava contigo trivialidades saborosas. Ouvimos a música que nos apeteceu. Tudo aconteceu porque o queríamos. Absolutamente. Os três mundos estavam agora em fusão. E dessa fusão resultou ainda mais amizade e cumplicidade, ainda mais sorrisos, dança, corpos, brindes e chão molhado…
Mais uma vez perdemos a noção do tempo. Gostava que me dissesses o que foi para ti?
Terás estas palavras?
Terão estas palavras a intenção díspar da realidade vivida por ti?
Tudo muda quando recordamos ou relatamos de novo. Deixa de ser verdade?

Dançamos muito. Dançamos como nunca ninguém dançou e isso faz-me tremendamente feliz: fazer tudo como nunca ninguém fez.

A varanda começava a ter em cena o primeiro – de muitos – e incríveis episódios.
Neste primeira noite sussurramos o quanto aquela vista permitia que os nossos sentidos se expandissem.
Partimos para mais uma aventura, só possível entre nós. Sete pessoas tão especiais. Agora dois mundos que se uniam para dar sentido a apenas um: o nosso.
Caímos na areia e brincamos. Só tu! E eu brinquei contigo.
O roteiro itinerante de bar em bar. A magia esteve sempre de braço dado a nós. Já viram que bom?
Era dia quando regressamos a casa. Eu e tu não adormecemos e dançamos ao lado de quem se rendeu ao cansaço. Vimos as pessoas comprar pão. A limpeza ao apartamento ficara adiada, nessa madrugada, e lá fora tudo incrivelmente limpo.
A música que adoras deu asas ao nosso corpo. Falei-te que sentia a textura do ar e os seis sentidos estavam embebidos numa só substância. O sono desapareceu e a liberdade chegou. Era impossível adormecer. Seria um pecado adormecer naquele estado.
Tal como não consigo adormecer agora.

Um café num sítio alto e muito familiar.
Mil debates sobre o que jantar.
Descida íngreme mas admirada. Não foi assim tão difícil!
Uma vista harmoniosa sobre a cidade e mar e rochedo e marginal e tectos alaranjados e muitas casas brancas.
Os dois amigos foram à cervejaria santos (maravilhosamente típica). Gostei de saber que estavam lá.
E nós fomos consumar, em acto, o desejo consensualíssimo de Stroganoff de Peru, para jantar.
Mais uma vez transformaste uma simples ave num prato suculento, arrojado e de chorar por mais…
Brindamos a ti e a uma noite intensa e inteiramente nossa...
Ficamos em casa, em longas conversas, até muito tarde! Como nos velhos tempos de Coimbra!
Uma mesa completamente desarrumada e colorida por nós. Objectos e coisas onde encontramos parte da nossa inspiração para voar.
O segundo episódio naquela varanda perto do mar aproximava-se. Dança sem fim, Ana e Carlos apaixonados, Joana sorridente, Márcio eufórico, Orlando sóbrio irrequieto, Pedro cheio de energia e Andrea de olhos a brilhar.
Naquele muro fumamos.
E naquele bar dançamos freneticamente até de manhã.

“Se adiares a gratificação sabe muito melhor quando a alcançares.”
Até amanhã e beijo na testa.

Anoiteceu rápido e fomos os quatro dançar folclore dentro de um café. As ruas faziam prever uma noite desejada.
E assim foi…
Por acaso, era noite.
Por acaso, o ano acabava ali.
Por acaso, estávamos onze pessoas a dançar livremente e felizes.
Por acaso, são pessoas que eu adoro e admiro.
Por acaso tudo correu como nunca correu…
Por acaso, é nos acasos que estão os melhores momentos.
Numa varanda com vista para o mundo, onde tudo foi permitido…

E esta noite já não tenho espaço para as minhas asas.
Despia-as e guardei-as perto de ti.

03 Janeiro 2007

O meu melhor amigo

"Hoje estou aqui uma vez mais ansioso por te abraçar! É véspera de Natal, a tarde apesar de ensolarada está fria, e deslizo vagarosamente com o meu carro pelas ruas da tua aldeia perante o olhar curioso dos transeuntes. Telefono-te e dizes-me para ir ter contigo a Penamacor. Estás com a tua família a visitar um lar de idosos. Acho isso tão querido! Tão teu! Sete quilómetros depois já estou a subir P. Vejo-te acenar efusivamente desde um terraço exterior ao edifício. Corro para te abraçar. É um abraço prolongado e muito aguardado que me deixa extremamente feliz. Dizes-me que me achas muito bonito com as minhas novas roupas e sinto-me ligeiramente embaraçado. A tua família recebe-me calorosamente, como sempre. Estão reunidos à volta de um casal de velhinhos, também eles teus familiares. Passados alguns momentos entro contigo dentro do edifício e deparo-me com um salão onde espalhados pelas várias cadeiras se amontoam rostos distintos. Alguns conservam uma aura de jovialidade no rosto apesar da idade. Outros têm um olhar apagado e distante, quase como se a chama de uma vida se tivesse extinguido ali antes do tempo! Diriges-te a uma velhinha ternurenta que te diz qualquer coisa ao ouvido. “Não, é meu amigo!” – Respondes, deixando-me adivinhar que ela te perguntara se eu era o teu namorado. E acrescentas vamos ser amigos até sermos muito velhinhos. Apercebo-me que acredito realmente nessas palavras. Basta-me olhar-te e ver-te completamente iluminada enquanto tentas transmitir a tua força a estas pessoas para saber isso. És uma criatura maravilhosa! Mais tarde, quando regressamos à tua aldeia, confidencias-me que precisaste de passar alguma da tua energia àquelas pessoas e como te sentes feliz com isso. Como te compreendo! Não esperaria outra coisa de ti… Observo aqueles campos, as casas da aldeia, as pessoas na rua e penso que foi ali que essa pessoa maravilhosa cresceu. Vejo-te pequenina, traquinas, a correr de um lado para o outro com a tua irmã. Esta imagem ganha novos contornos quando, já em teu quintal, me mostras o carrinho formula 1 no qual tu e a tua mana corriam na frente de camiões. Rimos como crianças! É encantador! Naquele quintal há todo o tipo de pormenores engraçados. Flores pintadas pelas tuas mãos, objectos quotidianos que parecem nascer de uma árvore, um estranho e divertido presépio que inclui a Branca de Neve e os Sete Anões… e um enorme sapo de louça! Sou capaz de jurar que a história de Natal original não tinha nenhum sapo!... Riste com a tua espontaneidade habitual. Sabe-me tão bem ver-te sorrir! Registamos o momento para a posteridade com a minha máquina fotográfica. Mais uma vez as nossas gargalhadas ecoam pelo sítio depois de vermos as nossas figuras nas fotografias. Mais tarde, sentados em frente à lareira deixamo-nos levar pela conversa. É sempre assim. Acho que poderíamos estar juntos anos a fio que o assunto nunca se extinguiria. Presenteias-me com as estrelas que irão formar uma constelação no tecto do meu quarto. De mim recebes um retrato, não muito perfeito mas suficientemente parecido contigo para que o exibas com orgulho para a tua família, e uma caixa de bombons. O tempo voa e voa quando estamos juntos. Estranhamente, ali sinto-me como se estivesse em casa. Vejo uma fotografia tua, ainda adolescente e uma sensação estranha invade-me. Será que não nos conhecíamos antes? Aquela menina na fotografia é-me tão familiar… Pergunto-te uma vez mais onde estiveste todos estes anos, beijo-te a testa com carinho e abraço-te uma e outra vez. Preciso tanto que saibas o quanto gosto de ti, o quanto preciso de ti. Sorris enternecida. Acho que dificilmente alguém pode compreender uma amizade destas. Para mim, és a minha grande amiga, a minha "maninha adoptiva", a força que me ajuda a levantar sempre que eu caio. Sinto já a angústia da hora da despedida que se aproxima mais uma vez. Depois de uma calorosa despedida no frio gélido do teu quintal vejo-me novamente a conduzir em direcção a casa. Lamento a crueldade de te ter tão longe, mas sinto a alegria ao pensar que ainda assim estamos tão perto. E sei que assim será até sermos mesmo muito, muito velhinhos…"

Obrigado: és maravilhoso :)

27 Dezembro 2006

Descreva um local que a fascine


A minha casa.
Gosto de chegar a casa: abrir a porta, abrandar e segurar a porta fortemente e, em câmara lenta, encostá-la. Pé ante pé, olho em redor, nunca está ninguém.
Sinto o intenso odor no ar... canela.
Fecho os olhos e reconheço cada cheiro como meu…
Pouso as malas.
A janela permanece aberta, seja Inverno ou não.
Ligo o rádio e o rosto é atraído para uma parede branca e nua, em que apenas um fio de luzes se faz notar. Ligo-as e iluminam-me, dizem-me que não estou só.
Em todo o lado: vidros, e neles imagens a preto e branco (que dizem um pouco de mim…)
Uma foca preguiçosa.
Um solitário candeeiro de rua.
Um corpo (sem rosto) de uma mulher nua com um piercing no mamilo.
Um relógio de bolso muito antigo.
Uma paisagem sombria e nevoeiro e um banco perto de um lago.
Uma estrada onde surgem dois caminhos.
Cultivo de arroz. Uma bicicleta.
A ribeira do Porto e dois corpos que se agarram e amam…

Adormeço sempre a sorrir.

Gosto de estar em casa.

19 Dezembro 2006


Nenhum sinal vermelho fez parar o frágil carro.
Almoço feito à pressa, intervalado em telefonemas e amizades. O banho depois de muito suor. Percorrer, em sofreguidão, a distância que permitiu eliminar todas as toxinas, de uma noite de exageros. Foi uma noite bonita, apesar de tudo.
A música povoa aquele confinado espaço, junto com o odor de cigarros de ontem e de outro dia e de hoje - agora.
Perdi a pressa desde que me imaginei sem ti. Respirei como não respirava desde que vim dos Açores. Chegar à plenitude de um fôlego profundo... Respirar bem é um privilégio.
Hoje ninguém me aborreceu. Houve um momento de leveza. Sem carroças e animais. Sem cancelas. Até o piso parecia estar bom.
Desta janela de um comboio vejo-te todos os dias. Trazes óculos de sol (mesmo que chova), mudas incessantemente todas as músicas entre as milhares apenas gostas de cinco. Metes batom e tira-lo de seguida. Hoje não tens pressa. Pressa para quê?
Permite-me que te diga: és muito mais importante do que pensas!


12 Dezembro 2006

porque me tratas mal quando precisas de mim?

para que não notes que preciso...

05 Dezembro 2006


Em cada experiência que vivo sei que, a partir dali, tudo pode mudar.
Um novo cheiro ou um simples toque trazem com eles: um novo desejo ou uma nova mudança ou um novo acaso. E ainda bem que é assim. Não o suportaria doutra forma.
Constrói-nos ter estes momentos incrivelmente saborosos. Enriquece-nos. Não me imagino sem esta imprevisível magia.

Embalou-nos o mar e quis ser ele a nossa companhia durante estes dias.
Não nos pediu permissão e nós não nos importamos de o ter junto a nós.

Quis a vida reservar-nos esta surpresa. Acredito que quem a criou fomos unicamente nós, não podia ser diferente. Somos seres demasiado especiais.

Corremos rápido contra o vento, qual atrito de caminhos desconhecidos…
No porta-luvas dela, uma garrafa de whisky, cerveja e vinho do porto. Malas feitas com carinho e à pressa. Ficou tanto por trazer mas não tem importância.
Esperamos debaixo de um túnel muito escuro e dezenas de carros não se adivinhavam ser o teu. Isto é apenas o princípio. Não prevejo dissecá-lo.
Chegamos. Já esperavam por nós amigos que amo. Amigos e abraços numa rua movimentada e apertada.
Despimos os carros das malas, todas diferentes, que continham parte da nossa imaginação, mas em objectos: comida, livros, música, cachecóis, laranjas, chocolates, uma viola, uma prancha de bodyboard, mil objectos de que dependemos e dezenas de coisas que gostamos e nós dão prazer…
As muitas mãos e força levaram tudo para cima. A entrada da residencial tinha um encanto especial. Talvez pelo brilho das luzes e bolas gigantes penduradas numa árvore artificial e verde. Uma entrada ampla e sofás castanhos.
Ninguém para nos receber, fez com que aquele espaço se tornasse de imediato a nossa nova casa. Tudo o que se seguiu era imprevisível: surreal.
Abraços fortes, corpos elevados no ar pela saudade, mesa cheia de coisas boas e uma varanda que nos dava a sensação de estarmos em contacto com o mundo inteiro. O mar muito perto e uma praça agitada cheia de cor, odores fortes e magia. Já tinha estado ali mas nada me parecia igual.
Rapidamente nos unimos em redor de uma mesa. O cozinheiro de serviço presenteou-nos com sábia culinária, bom gosto, requinte e muito carinho. Nunca me importei de esperar. Vale sempre a pena esperar. Demora tempo mas é um tempo preciso para que, quando gentilmente nos serve, possa ouvir um “huummm” em uníssono! Congratulamos-te e eu já tinha saudades tuas. É bom falar de ti. Tu mereces.
A Ana arrumava cuidadosamente tudo o que parecia fora de ordem e que permitisse dar àquele espaço um ar familiar e de aconchego. Rapidamente o tornamos nosso. Uma guitarra dava música à alma. Copos começam a tilintar e oiço brindes ao amor e ao momento! Momentos de encontro, e que em breve, serão de saudade! Mas não pensamos nisso. Vamos apenas vivê-lo…

Espalho os pensamentos em cima deste tapete e escolho um. Os restantes são banais e não te fariam, sequer, sentir o doce e deslumbrante, intenso sabor, do que eu e eles partilhamos. O que é pena. Era tão bom que todos o sentissem como nós sentimos. Porque eu sei-o de cor. Não sei o que seria sem este poder imaginativo. Escrevo isto para me dispersar e abstrair daqueles instantes… Porque não sei descrevê-los? Porque os descreveria de forma corriqueira? Eles merecem ser recordados e não descritos. A não ser que lhes dês a tua magia de olhar tudo assim: de forma apaixonada.
Poderei escrever o que não vivi? Sim.
Poderei escrever o que não senti? Não.
Perdemos noção de tudo.

O arroz em breve teria com ele marisco variado, tão docemente cozinhado. Em redor da mesa, os olhares tornavam-se mais cúmplices e falava contigo trivialidades saborosas. Ouvimos a música que nos apeteceu. Tudo aconteceu porque o queríamos. Absolutamente. Os três mundos estavam agora em fusão. E dessa fusão resultou ainda mais amizade e cumplicidade, ainda mais sorrisos, dança, corpos, brindes e chão molhado…
Mais uma vez perdemos a noção do tempo. Gostava que me dissesses o que foi para ti?
Terás estas palavras?
Terão estas palavras a intenção díspar da realidade vivida por ti?
Tudo muda quando recordamos ou relatamos de novo. Deixa de ser verdade?

Dançamos muito. Dançamos como nunca ninguém dançou e isso faz-me tremendamente feliz: fazer tudo como nunca ninguém fez.

A varanda começava a ter em cena o primeiro – de muitos – e incríveis episódios.
Neste primeira noite sussurramos o quanto aquela vista permitia que os nossos sentidos se expandissem.
Partimos para mais uma aventura, só possível entre nós. Sete pessoas tão especiais. Agora dois mundos que se uniam para dar sentido a apenas um: o nosso.
Caímos na areia e brincamos. Só tu! E eu brinquei contigo.
O roteiro itinerante de bar em bar. A magia esteve sempre de braço dado a nós. Já viram que bom?
Era dia quando regressamos a casa. Eu e tu não adormecemos e dançamos ao lado de quem se rendeu ao cansaço. Vimos as pessoas comprar pão. A limpeza ao apartamento ficara adiada, nessa madrugada, e lá fora tudo incrivelmente limpo.
A música que adoras deu asas ao nosso corpo. Falei-te que sentia a textura do ar e os seis sentidos estavam embebidos numa só substância. O sono desapareceu e a liberdade chegou. Era impossível adormecer. Seria um pecado adormecer naquele estado.
Tal como não consigo adormecer agora.

Um café num sítio alto e muito familiar.
Mil debates sobre o que jantar.
Descida íngreme mas admirada. Não foi assim tão difícil!
Uma vista harmoniosa sobre a cidade e mar e rochedo e marginal e tectos alaranjados e muitas casas brancas.
Os dois amigos foram à cervejaria santos (maravilhosamente típica). Gostei de saber que estavam lá.
E nós fomos consumar, em acto, o desejo consensualíssimo de Stroganoff de Peru, para jantar.
Mais uma vez transformaste uma simples ave num prato suculento, arrojado e de chorar por mais…
Brindamos a ti e a uma noite intensa e inteiramente nossa...
Ficamos em casa, em longas conversas, até muito tarde! Como nos velhos tempos de Coimbra!
Uma mesa completamente desarrumada e colorida por nós. Objectos e coisas onde encontramos parte da nossa inspiração para voar.
O segundo episódio naquela varanda perto do mar aproximava-se. Dança sem fim, Ana e Carlos apaixonados, Joana sorridente, Márcio eufórico, Orlando sóbrio irrequieto, Pedro cheio de energia e Andrea de olhos a brilhar.
Naquele muro fumamos.
E naquele bar dançamos freneticamente até de manhã.

“Se adiares a gratificação sabe muito melhor quando a alcançares.”
Até amanhã e beijo na testa.

Anoiteceu rápido e fomos os quatro dançar folclore dentro de um café. As ruas faziam prever uma noite desejada.
E assim foi…
Por acaso, era noite.
Por acaso, o ano acabava ali.
Por acaso, estávamos onze pessoas a dançar livremente e felizes.
Por acaso, são pessoas que eu adoro e admiro.
Por acaso tudo correu como nunca correu…
Por acaso, é nos acasos que estão os melhores momentos.
Numa varanda com vista para o mundo, onde tudo foi permitido…


E esta noite já não tenho espaço para as minhas asas.
Despia-as e guardei-as perto de ti.

03 Janeiro 2007

sexta-feira, 2 de março de 2007


Sempre que viajo agarro-te com força e determinação, não me esquecia de ti por nada. Sabe-se lá o fim-de-semana...

Estimo-te porque me permites viajar para longe. Em ti milhares de realidades, ficção, amor, tristeza, antiguidade, história, prazer, dever, palavras... És mágico e estou contigo sempre antes de adormecer. Embalas o meu sono com paixão. Mesmo já na fase alucinante da chegada do sono, persisto e tento, pelo menos chegar ao último ponto final...

Acompanhas-me com sabedoria.

Se te toco agora não vou querer fechar-te, és apaixonante...

Gosto de te ver comigo, ou dentro da mala (mesmo que não te agarre), de comer alperces secos oriundos da Turquia mesmo ao teu lado... Gosto de estar contigo numa esplanada cheia de sol, de te ver com óculos de sol e chávena de café na mão... E perto da lareira? Quase a adormecer em cima de ti?

Levo-te sempre sempre comigo...

É em ti que encontro uma soberba magia, que mais nada nem ninguém me poderá dar...

Leio-te com carinho...


07 Dezembro 2006

Fogo e Noite (Tu)

Aconteceu... E por me teres feito cego
Recordo o sabor da tua pele
E a calor de uma tela
Que pintámos sem pensar.
Ninguém perdeu,
E enquanto o ar foi escuro
Despidos de passados
Talvez de lados errados Conseguiste me encontrar.

Foi dança
Foram corpos de aço
Entre trastes de guitarras
Que esqueceram amarras
E se amaram sem mostrar.
Foi fogo
Que nos encontrou sozinhos
Queimou a noite em volta
Presos entre chama à solta
Presos feitos para soltar...

Estava escrito
E o mundo só quis virar
A página que um dia se fez pesada

E o suor
Que escorria no ar
No calor dos teus lábios
Inocentes mas sábios...
No segredo do luar.
Não vai acabar
Vamos ser sempre paixão
Vamos ter sempre o olhar
Ao nível de ninguém
Dei-te mais...! valeu a pena voar...

Estava escrito
E a noite veio acordar
A guerra de sentidos travada num céu
Nem por um segundo largo a mão
Da perfeição do teu desenho
E do teu gesto no meu...

Foi como um sopro estranho... ...e aconteceu...
És fogo em mim,
És noite em mim.
És fogo em mim...

(Toranja)

09 Novembro 2006

Conto final

Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas –
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.

Ricardo Reis (Fernando Pessoa)


Antes do amanhecer tens um sonho que te leva para um lugar exótico e longínquo. Passeias perto do mar e sentes o calor do fim de dia a embater-te no corpo inteiro. Sentes um leve arrepio, um misto de calor e frio. O cheiro a maresia completa este cenário. Respiras bem fundo, como quando eras criança. Enches os pulmões. Expiras num só fôlego. Sentes-te. Sentas-te. Contemplas o horizonte. O pôr-do-sol. O fim do dia. O instante mais tranquilo – o fim do dia… Os tons conjugam-se harmoniosos.
Os lençóis estão lavados, perfumados e brancos. O cheiro a pão, que sai agora do forno, perfuma o ar, em cima da mesa, uma tigela com doce de figo.
Vou-te buscar retratos deste e daquele momento. Apontas e dizes “momentos felizes”. Enquanto mos mostras, vejo uma criança sorrir para mim. Olha-me e ri. Olha-me nos olhos, conquistei a sua atenção. Olhar para mim fê-la sorrir.
O meu corpo é leve, Martim. Flutuo. Respiro bem, sem formigueiros. Aproveito este instante. Em breve não estarei aqui. Recordo contigo aqueles retratos, aqueles que reproduzem o momento perfeito, o momento em que as pessoas que amavas estão a sorrir, bonitas, bem dispostas e alegres. Onde os seus olhares e feições expressam com exactidão o que as invade - a felicidade de estarmos aqui.

I

A espera silenciosa encerra os dias e noites. Cumplicidade, unicidade e perfeição. Acredito na perfeição. Se desde sempre a referiam como enfadonha, hoje posso dizer que a sinto a cada sorriso mágico que esboças, a cada passo que dou contigo, a cada vez que te encontro.
Martim, o que se destaca em ti é o teu fascinante carácter «tranquilo», o teu ar ingénuo e sonhador. Sempre te disse isso.
Mas aqui, um girassol brota de um vaso que tem forma de semente. Um girassol que foi incapaz de trepar da terra seca. Arranquei-o, tratei dele e agora está forte e vigoroso.
Observo ainda dois corpos muito negros, negro opaco, sujo e usado, nas mãos de um vendedor do Senegal. É uma estátua de madeira e assemelha-se a dois rapazes.

Eu e tu. Eu e tu, Martim.

Sinto medo de errar. Surge outra vez. Perdoas-me, meu amor?
Percorre-me a alma com suavidade. Tenho sede de ti.

Naquela esplanada da Baixa disse-te o meu primeiro nome: André.
Disse-te ainda que estive a arrumar o sótão, que todos devíamos arrumá-lo pela ordem com que sentimos. E assim arrumei as prateleiras de uma estante complexa – a vida.
E tu, Martim, falaste dos teus anéis… Os anéis que tinhas partiam-se sempre que arrumavas as compras do supermercado. Olhavas incrédulo e sentias um arrepio vazio… não fosse a restante metade desintegrar-se também. Assim, pousava-la cuidadosamente em cima da tua mesa de azulejo açoriano, como se da tua alma se tratasse: pequena, só, partida em mil pedaços, perdida.

Aqui e agora ganho coragem. Estou em casa, olho para um monte de folhas rabiscadas: apontamentos de psiquiatria. É o que diz na lombada do arquivo.
Quantos casos serão como o nosso?
Quantos, Martim?

II

Consigo sentir-me sozinho estando perto de ti. Uma solidão gritante. Um silêncio perturbador. Não estás comigo, Martim.
Falei-te que o meu actual emprego é diferente do último. Trabalho numa papelaria de bons artigos. Todos sabem e conhecem o sítio onde trabalho. Orgulho-me de lá trabalhar.
És a minha inspiração, quando decoro a montra. Todos a elogiam, talvez porque ninguém goste de fazer este trabalho. E sinceramente, não ficou nada de especial… Bajulam-me, só para que seja sempre eu a fazê-lo.
Ao contrário de mim, ninguém sabe onde tu realmente trabalhas e o que realmente fazes. Eu imagino-te num laboratório, de bata branca, a investigar física nuclear.
Outros vêem-te vaguear por estas ruas. Outros consideram-te alguém com problemas relacionados com o álcool.
Perguntas-me se tens um problema. Perguntas-me sempre isso no dia da ressaca. No dia a seguir à intoxicação pela única substância que te faz parar os pensamentos, aos que chamas, em tom inflamado: “perturbadores, malditos, insistentes!”.
Embriagas-te de ti mesmo.
Provavelmente no próximo “duelo de bebidas” (como lhe costumavas chamar), vou abandonar-te…Tal como tu te abandonas a cada vez que te embriagas e não consigo segurar o teu corpo e levar-te para casa. A cada vez que tento abrir a porta do teu prédio e não consigo (porque só tu sabes o truque) e aguardo, sentado horas a fio, pela chegada da tua sobriedade.
Olho para ti nesse instante e, por detrás dos teus óculos partidos e sujos, vejo uns olhos pequenos e míopes – os olhos de uma criança assustada a gritar: “por favor, salva-me!” (mas não o consegues dizer de tão bêbedo que estás). Vejo-te de novo cair na calçada, caído onde já te levantei vezes e vezes sem conta…
Sim, tu …perdido, outra vez.

III

Imagino a minha psicóloga sempre a sorrir. Já lhe disse que só de imaginá-la fico bem disposto. Já lhe disse que me faz sorrir.
Descrevo-lhe, em poucas palavras, os medos que tenho.
O medo de ser despedido outra vez está a ser ultrapassado. Neste emprego trabalho só com mulheres. Gosto especialmente da Constança. Usa óculos, ajuda-me e nunca a vi expressar um olhar recriminatório. Não tem olhos críticos e não mente. Aqueles olhares que a minha psicóloga diz “verem-se ao longe”, infelizmente tão usuais na sociedade terrivelmente preconceituosa em que vivemos.
Gosto de trabalhar com pessoas bem dispostas e humildes. Detesto peneiras.
Quanto ao medo de voltar a ser espancado pelo meu irmão ou pelo meu pai, disse à psicóloga que se esfuma com o passar dos dias. Saíram de casa os dois por minha causa. Dizem que sou delinquente.
As minhas duas irmãs e cunhados deixaram de me convidar para a passagem de ano e nem sequer me chamam para tirar fotografias junto deles. Estão sentados num bar atrás de mim e fingem não me conhecer. Mas a minha mãe está comigo. Vivemos os dois num apartamento de um bairro no centro da cidade. Antigamente era o bairro da droga. Agora já não e nós permanecemos lá. Só os miúdos barulhentos, após o ritual de fumar charros, perturbam o nosso sono. E o teu?
Vives tão perto de mim.
O meu medo és tu.

IV

Desenho uma flor. Não conheço nenhuma igual a esta. Insisto no seu contorno. Contemplo-a e o olhar desprende-se, fica difuso e acalmo-me. Desenho sempre uma flor. A mesma flor. A flor que nunca vi. A flor que não existe. A flor frágil, na qual vejo o teu olhar iluminado pela luz e chama de uma vela…
Aquele olhar.
Só teu.
O teu.
Naquele que dizias, só olhando para mim, como era importante para ti.
Sou feliz quando imagino o teu corpo, quando adormeces, sorris e sonhas. Vejo-te. Dormes tranquilo. Tu foste a felicidade. Sabias?

V

Na praia da ilha de Tavira reservo a mesa, que considero mais harmoniosa. Encomendo uma garrafa de champanhe doce e margaridas vermelhas perfumadas.
(Só espero que o mar traga tantas brisas quanto os meus suspiros, meu amor)
Sou irremediavelmente sensível.
Espero que gostes deste momento. Estou nervoso. Aqui faz tanto frio.
Lembrei-me de velas. Que achas de velas? Tenho milhares. Gosto de coleccioná-las. E este é o jantar das nossas vidas. Quero dar-te o melhor. Se não o fizer, vai perder-se dentro de mim.
Talvez leve a minha camisa preta. Tem a vantagem de me tornar mais elegante. Tu, preferes a azul porque é a mais discreta, dizes enquanto te vestes.
Tudo não passará de segundos vividos como se não houvesse amanhã.
Sou irremediavelmente feliz.
Quero fazer-te feliz. Basta tu quereres.

VI

Este amanhecer inspira-me e traz-me saudade de ti.
O teu amanhecer, hoje também foi diferente. Imagino-te ainda a dormir e os compromissos ficaram entregues ao sonho que tens neste instante. Acordarás um pouco desorientado, com um olho meio fechado e outro meio aberto (que lindos olhos tu tens!). Acordarás pronto para mais um dia de contactos sociais, de sorrisos, de planos, de conversas ao telefone, encontros em cafés e troca de ideias. Em certos momentos não te conheço bem (em muitos momentos, aliás). Em tempos preocupaste-me, mas essa nuvem negra foi desaparecendo e com ela aprendeste. Foste aprendendo que a vida é um bem precioso…
Ficas comigo?
O teu sorriso abre uma porta para o paraíso, o teu sorriso alegra na tristeza e dá tranquilidade à confusão. O teu sorriso é puro e verdadeiro, como a tua alma mundo que te rodeia é mais humano porque fazes parte dele, porque contribuis para a preservação da natureza e ensinas todos a fazê-lo. Adoras animais, adoras as coisas simples. Adoras um sorriso sincero e aberto. Adoras beber café e apreciar o sol a brilhar. Aprecias a arte que te envolve. Adoras focar o pormenor das expressões humanas e dar-lhe um significado. Registas com a tua companheira cúmplice máquina fotográfica, retratos da tua sensibilidade, em focos precisos de um gesto ou paisagem ou simples escaravelho a tentar procriar.
Adoras arte, adoras respirar e sentir paz.
És simplesmente doce.
Falas pouco acerca do que sentes, no entanto, és um ouvinte incondicional; ouves e ajudas, ouves e aconselhas, conselhos sábios e instintivos. A felicidade do outro é, sem dúvida, também a tua.
Fica comigo, Martim.

VII

- "Trás ingredientes para a tarte de cereja!" – disseste-me.
A agitação interior surgiu no instante em que o trabalho terminou e te telefonei. Fui ao supermercado. Antes de toda esta realidade, o desejo invadia-me a alma, o desejo de estar junto de ti. Foram alguns dias de espera silenciosa. Dia após dia. Noite após noite, encerradas pela leitura.
Aquela sensação de que "a hora está a chegar", provoca ansiedade e uma enorme vontade de aproveitar cada segundo, cada momento, cada gesto e sorriso. É como a ideia como deveríamos encarar a morte, que esta dá sentido à vida e deveria permitir-nos relativizar os problemas e a velha máxima concretiza-se aqui: a vida é bonita quando é simples. Assim, aproveitamos cada momento como se fosse a primeira vez.
(Tu sabias que era o último).
Inconscientemente festejamos o amor que nos uniu desde o primeiro olhar.
-“Tens de comprar base para a tarte, ou massa folhada ou quebrada. A que horas chegas? Queres que guarde o jantar para ti? “.
Eu observei aquele abraço através dos meus olhos verdes. Sorri abertamente. Observei-os com doçura. Abraçaram-se de forma tão forte e apaixonada que continuei a sorrir; pensei "gostam mesmo um do outro" (via-se no brilho dos vossos olhos). O abraço durou pouco para a imensidão da saudade que sentiam. Depois foi o pisar da realidade.
Subiram para jantar. Houve troca de olhares de pura admiração.
Deram uma caminhada ao sabor do luar.
-"Martim, este é o céu mais estrelado que já vi. É imenso!”, disse.

Eu aguardava-os.
Os grilos cantavam no escuro, o vento embatia suavemente nas minhas folhas. Quando me tocaram, disseram: "aqui não tem nada, temos que trepar a rede". Assim, dentro de segundos, agarraram-se a mim e conjuntamente colheram os meus frutos. Observei-os e vi-os sorrir, confidenciavam sobre as infâncias e brincadeiras comuns.

-"Estas cerejas são pequenas, muito vermelhas e saborosas".
Tirou os caroços e criou um montinho para depois o colocar sobre a base da tarte. Misturou quatro gemas, dois dl de natas, 150 gr. de açúcar e um iogurte de morango. Foi ao forno.
-"Olha ali, está tão bonita! Eles amanhã vão deliciar-se."
O sono.
O amanhecer alucinante. A rapidez de movimentos para chegar à hora marcada. Má disposição.
-" Está uma delícia, quem fez?" – perguntaram todos.
- "O André fez o recheio, eu a base", disseste com orgulho.
Naquela tarde, invadiu-nos uma plena sensação de paz. Deitados na rede, contemplei todos os teus gestos. Ri-me feliz, pousei a face na mão e sonhei.
Quis agarrar uma folha e caneta, não as encontrei, mas ficou gravado na memória.
Rapidamente o exterior deu conta de mim. Queria prolongar tal beleza…
O mau humor convertera-se em bom humor, dando lugar a abraços meigos. De imediato, os olhos vislumbravam tudo de forma mais colorida. Invadiram-nos de forma rápida e inesperada o coração e, consequentemente, a visão bonita de tudo em nosso redor. Parecia magia. É inexprimível.
Anoiteceu.
No monte estava tudo muito calmo, sereno e agradável.
A rede balançava. Ficou mais pesada com os nossos corpos.
Abri os olhos e vi flores. As estrelas. O calor da noite. Fechei os olhos e sorri feliz.
Sonho com tudo e com nada.
Que amanhecer delicioso e bem disposto! Através do silêncio, mil palavras foram ditas de encontro ao amor, de novo, outra vez.
Depois… Depois vem o contacto com paisagens virgens e nunca vistas. Flores familiares com odores que recordam as brincadeiras de quando éramos crianças. O tempo passou sem darmos conta, através de cumplicidades inconfessáveis, indescritíveis e que nos tornam tão especiais.
Já sinto a tua falta.

VIII

Abriste rápido.
Terá sido o desejo ou o nervosismo?
Olho para ti e nunca sei se estás a sorrir verdadeiramente ou se é um tique, movimento involuntário, que expressas de forma inconsciente. Quando me vês ris? Quando te vejo sorrio. Vejo em ti a espontaneidade e pureza que não tenho. As amarras, a que estou preso num quotidiano repetido, permitem-me, paralelamente ao teu sorriso aberto, sentir que hoje sou livre. Estás na minha mente. Hoje procuro inspiração em ti. Aliás, era importante que a fosses para todos. Sabes porquê? Eu digo. Ouves uma música na rádio, gostas dela e qual é o teu primeiro ímpeto? Dançar. Estejas onde estiveres, com quem estiveres; seja no consultório ou a ver o e-mail, seja a almoçar em família ou no restaurante, seja no banho ou no supermercado…danças e balanças sem fim. Vem de dentro de ti a "música do coração".Danças sem pudor, sem preconceitos, como se não houvesse mundo em teu redor. E eu?
Eu observo-te e tento acompanhar-te. Gesticulo timidamente. Olho desconfiado a multidão e penso que todos devíamos ser como tu: puro. Hoje vens um pouco triste. Meto conversa contigo e tu, encolhido, apenas olhas para mim. O que tens? – Pergunto, preocupado. Respondes que não consegues contrariar a passagem do tempo. Envoltos pelo silêncio perturbador, deixo-te reflectir. Tento entender o teu olhar. Não sei descrevê-lo. Desculpa-me. Partes sem dizer nada, e se eras libertação e espontaneidade outrora, hoje representas a prisão dos meus movimentos. Temos pouco tempo para estar aqui. É necessário este trajecto para que um dia possas entender que no teu silêncio, outrora cálido e reconfortante, existem agora palavras sem eco, sem sentido, confusas. Deixaste-me. Deixaste-me aqui, preso ao tempo de ilusões sem cor. Deixaste o teu rasto e energia. Eras incansável. Sabias?
Onde estás?
Tic-Tac. Tic-Tac. Tic-Tac.
É este o som que dizias ouvir sem fim dentro de ti e que, a cada passo que davas, querias pará-lo. Dizias-me em agonia que, dia após dia, estavas farto de tudo… e que tudo tinha um fim… e que nada era eterno…e que a morte era a tua vida…Estás a tremer.
- "Acabou" – dizes-me Deixaste de me ouvir e agora está tudo mais calmo.
Tic-Tac. Tic-Tac. Tic-Tac.
Ecoam em ti os ponteiros da vida. Na brevidade de mais um momento, toco na tua garganta e sinto o teu coração bater mais lento (como o ponteiro dos segundos) e nesse segundo, nesse preciso segundo parou...


Antes de morrer, sussurraste ao meu ouvido, muito baixinho: - "Ouvi dizer que a morte está escondida nos relógios, André".

Eva Jasmim


09 Novembro 2006

Prazer de brincar


A pessoa que mais te dá atenção, por breve instantes, disse-te que devíamos ser o mais parecidos com as crianças. Pular e correr numa seara e sentir nas mãos a suavidade das espigas, ainda frescas e acabadas de nascer, dar beijinhos tímidos na ponta dos lábios e cair para trás a rir, jogar às escondidas e gritar alto "apanhei-te", dormir tão tranquilamente que não sabes bem se o que é um sonho ou a realidade, pedir-te que me contes outra vez aquela história que sempre me fez sonhar... a história de sete ratos que viviam numa bota, eles também comiam e arrumavam a casa e liam livros, eram ratos alegres e de olhos grandes... Não tenhas vergonha de nada, dizes. As crianças não têm vergonha. Sorri como elas. Dá carinho e faz um gesto amoroso como elas, como se ninguém te estivesse a ver. Sim, suja-te na terra, sim, suja a roupa com erva e resto de tomate que colheste no campo... como foste feliz podes sê-lo sempre, nunca te esqueças, diverte-te como uma criança...
Assim, puxaste o meu braço e levaste-me para onde eu não esperava. No meio da multidão fizemos milhares de caretas e fugias de mim e escondias-te, e eu encontrava-te e gritávamos bem alto um para o outro como duas crianças, e nesses encontrões pude sorrir como já não o fazia há muito tempo, talvez desde criança... fizeste-me sonhar e não sabes. Agarraste a minha mão e eu fui atrás de ti, e foi mágico. Aquilo que eu sempre quis fazer com alguém e nunca fiz: brincar como quando era criança...


30 Outubro 2006



















Contaste-me tantas coisas que preferia não saber.
Olhaste-me nos olhos e começaste a falar. Que o teu nome era Guida e que o teu maior sonho, desde pequenina, era teres um quarto com janela. Provinhas de uma família pobre e a tua casa era um moinho. Foi lá que nasceste. A tua mãe fugia às escondidas, por entre milheirais, abraçava o teu pai e foi nesse momento, sob o pó da farinha e grãos de trigo ou outros cereais, por meio desse amor, que foste concebida. Tens muitos irmãos.
O teu pai gostava do teu cabelo comprido percorrido pelo vento e que vestisses camisolas de gola alta e calças de ganga. Sempre que podias levavas-lhe rebuçados, ele adorava rebuçados.
Desde que ele desapareceu que o imaginas sempre a chegar, estejas onde estiveres.
Depois de saberes que morrera que nunca mais conseguiste comer sem o pensamento de que ele "terá morrido à fome" e, assim, paras de comer...
Não soube o que te dizer. O que se diz numa situação destas?

04 Outubro 2006

Cravaste as garras. Feriste as feridas que sangravam. Dor aguda. Insuportável.
Perfuravas profundamente a alma e corpo… o corpo e a alma... Vezes sem conta, espinho maldito.
A primeira vez que perdeste forças deixei-te ficar junto a mim. Cicatrizes que foste deixando aqui e ali.
Cravas as garras doentiamente. Cravas mais fundo e, em círculos, remexes para doer mais.
Presas fáceis. Tão fáceis que as matas por dentro.
Não passas de um simples espinho que agarrado fortemente se quebra e se desfaz em mil pedaços – uma insignificância.
Um simples espinho que arranquei e deitei para fora.
Olho-te e brota de ti o teu último sinal de vida – um simples prurido.
O meu tronco onde permanecias (como um parasita) está mais bonito do nunca: está forte, luminoso e cheio de vigor.
Acabaram-se os espinhos.

28 Setembro 2006

O projecto do conto que venho a escrever

Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas -
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.

Ricardo Reis (Fernando Pessoa)


I

A espera silenciosa arrasta os dias e noites em partilha de confidências. Cumplicidade, unicidade e perfeição, é o que sinto nesses instantes. Acredito na perfeição. Se desde sempre a referiam como enfadonha, hoje posso dizer que a sinto: a cada sorriso mágico que esboças, a cada passo que dou contigo, a cada vez que te encontro.
O que se destaca em ti é o teu fascinante carácter «tranquilo», o teu ar ingénuo e sonhador. Sempre te disse isso.
Mas aqui, um girassol brota de um vaso em forma de semente, foi incapaz de trepar a terra seca.
Observo ainda dois corpos muito negros, negro opaco sujo e usado, na mão de um vendedor do Senegal. Assemelham-se a dois homens.

Eu e tu. Eu e tu, Martim.

Sinto medo de errar. Surge outra vez. Perdoas-me, meu amor?
Ontem estavas vestido de monge. Fingi não te ver. O capuz retirava-te a expressão linda que costumas irradiar.
Percorre-me a alma com suavidade. Tenho sede de ti.

Disseste que estiveste a arrumar o teu sótão. Que todos devíamos arrumá-lo de vez enquanto. Arrumaste as prateleiras de uma estante complexa – a tua vida.
E os anéis… Os anéis que tinhas partiam-se sempre que arrumavas as compras do supermercado. Olhavas incrédulo e sentias um arrepio vazio… não fosse a restante metade desintegrar-se também. Assim, pousava-la cuidadosamente em cima de uma mesa de granito e azulejo açoriano (como se da tua alma se tratasse). Pequena. Só. Perdida.

Ganho coragem. Olho para um monte de folhas rabiscadas: apontamentos de psiquiatria. É o que diz na lombada do arquivo.
Quantos casos serão como o nosso?
Quantos, Martim?

II

Consigo sentir-me sozinho estando perto de ti. Uma solidão gritante. Um silêncio perturbador. Não estás comigo.
O meu emprego é diferente do último. Trabalho numa papelaria de bons artigos. Todos sabem e conhecem o sítio onde trabalho. Orgulho-me de lá trabalhar.
És a minha inspiração quando decoro a montra. Todos a elogiam, talvez porque ninguém gosta de fazer este trabalho. E sinceramente, não ficou nada de especial… Bajulam-me só para que seja sempre eu a fazê-lo.
Ao contrário de mim, ninguém sabe onde tu realmente trabalhas e o que realmente fazes. Eu imagino-te num laboratório, de bata branca, a investigar física nuclear.
Outros consideram-te alguém com problemas relacionados com o álcool.
Perguntas-me se tens um problema. Perguntas-me sempre isso no dia da ressaca. No dia a seguir à intoxicação pela única substância que te faz parar os pensamentos, aos que chamas e gritas em tom inflamado “perturbadores malditos e insistentes”.
Embriagas-te de ti mesmo.
Provavelmente no próximo “duelo de bebidas”, como lhe costumavas falar, vou abandonar-te… Tal como tu te abandonas em cada vez que bebes e não te consigo segurar e levar para casa, a cada vez que tento abrir a porta e não consigo (porque só tu sabes o truque) e aguardo, sentado horas a fio pela chegada da tua sobriedade.
Olho para ti triste. Muito triste.
Por detrás dos teus óculos partidos e sujos, vejo os olhos de uma criança assustada e gritas: “por favor, salva-me” (mas não o consegues dizer de tão bêbedo que estás). Vejo-te de novo cair na calçada, caído onde já te levantei vezes e vezes sem conta…
Sim, tu …perdido.

III

Imagino a minha psicóloga e vejo-a sempre a sorrir. Já lhe disse que só de imaginá-la fico bem disposto. Já lhe disse que me faz sorrir.
Descrevo-lhe em poucas palavras os medos que tenho.
O medo de ser despedido outra vez está a ser ultrapassado. Neste emprego trabalho só com mulheres. Gosto especialmente da Constança. Usa óculos, ajuda-me e nunca a vi expressar um olhar recriminatório. Não tem olhos críticos e não mente. Aqueles olhares que a minha psicóloga diz “verem-se ao longe”.
Gosto de trabalhar com pessoas bem dispostas e humildes. Detesto peneiras.
Quanto ao medo de voltar a ser espancado pelo meu irmão mais velho ou pelo meu pai, esfuma-se com o passar dos dias. Saíram de casa, os dois, por minha causa. Dizem que sou um vândalo.
As minhas duas irmãs e cunhados deixaram de me convidar para a passagem de ano e nem sequer me chamam para tirar fotografias junto deles. Estão sentados num bar atrás de mim e fingem não me conhecer. Mas a minha mãe está comigo. Vivemos os dois num apartamento de um bairro no centro da cidade. Antigamente era o bairro da droga. Agora já não. Mas eu permaneci. Só os miúdos são barulhentos, após ritual de fumar charros, conseguem perturbar o meu sono. E o teu?
Vives tão perto de mim.
O meu medo és tu.

IV

Desenho uma flor. Não conheço nenhuma igual a esta. Insisto no seu contorno. Contemplo-a e o olhar desprende-se, fica difuso e acalmo-me. Desenho sempre uma flor. A mesma flor. A flor que nunca vi. A flor que não existe. A flor em que vejo o teu olhar, que expressavas tão unicamente, iluminado pela luz de uma vela, intercedido pela chama, projectada no meu olhar...
Aquele olhar. Só teu. O teu.Naquele que dizias...Só olhando...Como era importante para ti
Sou feliz assim. Sabias, André?
Sem ti.
Sou feliz quando imagino o teu corpo, quando adormeces sorris e sonhas. Vejo-te agora. Dormes tranquilo. Tu foste a felicidade. Sabias?

V

Na praia da ilha de Tavira reservo a mesa que considero mais harmoniosa. Encomendo uma garrafa de champanhe doce e margaridas vermelhas perfumadas.
(Só espero que o mar traga tantas brisas quanto os meus suspiros, meu amor)
Sou irremediavelmente sensível.
Espero que gostes deste momento. Estou nervoso. Aqui faz tanto frio.
Lembrei-me de velas. Que achas de velas? Tenho milhares. Gosto de coleccioná-las. E este é o jantar das nossas vidas. Quero dar-te o melhor. Se não o fizer, vai perder-se dentro de mim.
Talvez leve a minha camisa preta. Tem a vantagem de me tornar mais elegante e mais misterioso. Tu preferes o azul porque é uma cor discreta, dizes enquanto te vestes.
Tudo não passará de segundos de prazer, vividos como se não houvesse amanhã, como só nós sabemos viver.
Sou irremediavelmente feliz.
Quero fazer-te feliz. Basta tu quereres.

VI

Este amanhecer inspira-me e traz-me saudade de ti. O teu amanhecer hoje também foi diferente, imagino-te ainda a dormir, os compromissos ficaram entregues ao sonho que tens neste instante. Acordarás um pouco desorientado, com um olho meio fechado e outro meio aberto (que lindos olhos tu tens!). Acordarás pronto para mais um dia de contactos sociais, de sorrisos, de planos, de conversas ao telefone, encontros em cafés e troca de ideais. Em muitos momentos não te conheço bem, em muitos momentos, aliás... em tempos preocupaste-me, mas essa nuvem negra foi desaparecendo e com ela aprendeste. Foste aprendendo que a vida é um bem precioso…
Ficas comigo?
O teu sorriso abre uma porta para o paraíso, o teu sorriso alegra na tristeza e dá tranquilidade à confusão. O teu sorriso é puro e verdadeiro, como a tua alma. O mundo que te rodeia será mais feliz porque fazes parte dele, porque contribuis para a preservação da natureza e ensinas todos a fazê-lo. Adoras animais, adoras as coisas simples. Adoras um sorriso sincero e aberto. Adoras beber café e apreciar o sol a brilhar, apreciar a arte que te envolve. Adoras focar o pormenor das expressões humanas e dar-lhes um significado. Registas com a tua companheira cúmplice, retratos da tua sensibilidade, em focos precisos de um gesto ou paisagem, ou simples escaravelho a tentar procriar. Adoras a arte, adoras respirar e sentir paz.
És simplesmente doce. Falas pouco acerca do que sentes, no entanto, és ouvinte incondicional; ouves e ajudas, ouves e aconselhas; conselhos sábios e instintivos. A felicidade do outro é, sem dúvida, também a tua.
Fica comigo, Martim.

VII

- "Trás ingredientes para a tarte de cereja!" – disseste.
A agitação interior surgiu no instante em que o trabalho terminou e te telefonei. Fiz previsões. Fui ao supermercado. Antes de toda esta realidade, o desejo invadia-me a alma, o desejo de estar junto de ti. Foram alguns dias de espera silenciosa. Dia após dia. Noite após noite, encerrada pela leitura. Aquela sensação de que "a hora está a chegar", provoca ansiedade e uma enorme vontade de aproveitar cada segundo, cada momento, cada gesto e sorriso. É como a ideia com que deveríamos encarar a morte, que esta dá sentido à vida e deveria permitir-nos relativizar os problemas, onde a velha máxima se concretiza aqui, a vida é bonita quando é simples. Assim, aproveitamos cada momento como se fosse a primeira vez.
(Tu sabias que era o último).
Inconscientemente festejamos o amor que nos uniu desde o primeiro olhar.
-“Tens de comprar base para a tarte, ou massa folhada ou quebrada. A que horas chegas. Queres que guarde o jantar para ti? “.
Eu observei aquele abraço através dos meus olhos verdes. Sorri abertamente. Observei-vos com doçura. Abraçaram-se de forma tão forte e apaixonada que continuei a sorrir, pensei "gostam mesmo um do outro", via-se no brilho dos vossos olhos. O abraço durou pouco para a imensidão da saudade que sentiam. Depois foi o pisar da realidade.
Subiram para jantar. Houve troca de olhares. Pura admiração.
Deram uma caminhada ao sabor do luar.
-"Este é o céu estrelado mais bonito que já vi, é imenso”, disse.
Eu aguardava-os.
Os grilos cantavam no escuro, o vento embatia suavemente nas minhas folhas. Quando me tocaram, disseram: "aqui não tem nada, temos que trepar a rede". Assim, dentro de segundos, agarraram-se a mim e conjuntamente colheram os meus frutos. Observei-os e vi-os sorrir, confidenciavam sobre as infâncias e brincadeiras comuns.
-"Estas cerejas são pequenas, muito vermelhas e saborosas".
Tirou os caroços e criou um montinho para depois o colocar sobre a base da tarte. Misturou quatro gemas, dois dl de natas, 150 gr. de açúcar e um iogurte de morango. Foi ao forno.
-"Olha ali, está tão bonita! Eles amanhã vão deliciar-se."
O sono.
O amanhecer alucinante. A rapidez de movimentos para chegar à hora marcada. Má disposição.
-" Está uma delícia, quem fez?" – perguntaram todos.
- "Ele fez o recheio, eu a base", disseste com orgulho.
Naquela tarde invadiu-nos uma plena sensação de paz. Deitados na rede, contemplei todos os teus gestos. Ri-me feliz, pousei a face na mão e sonhei.
Quis agarrar uma folha e caneta, não as encontrei, mas ficou gravado na memória.
Rapidamente o exterior deu conta de mim. Queria prolongar tal beleza…
O humor convertera-se em bom humor, dando lugar a abraços meigos. De imediato, os olhos vislumbravam tudo de forma mais colorida. Invadiram-nos de forma rápida e inesperada o coração e, consequentemente, a visão bonita de tudo em nosso redor. Parecia magia. É inexprimível.
Anoiteceu.
No monte estava tudo muito calmo, sereno e agradável.
A rede balançava. Ficou mais pesada com os nossos corpos entrelaçados.
Balançou na direcção do prazer.
Abri os olhos e vi flores. As estrelas. O calor da noite. Fechei os olhos e sorri feliz.
Sonho com tudo e com nada.
Que amanhecer delicioso e bem disposto! Através do silêncio, mil palavras foram ditas de encontro ao amor, de novo, outra vez.
O toque carinhoso na barriga.
Depois… Depois vem o contacto com paisagens virgens e nunca vistas. Flores familiares com odores que recordam as brincadeiras de quando éramos crianças. O tempo passou sem darmos conta, através de cumplicidades inconfessáveis, indescritíveis e que nos torna tão especiais.
Já sinto a tua falta.

VIII

Abriste rápido.
Terá sido o desejo ou o nervosismo? Olho para ti e nunca sei se estás a sorrir verdadeiramente ou se é um tique, movimento involuntário, que expressas de forma inconsciente. Quando me vês ris? Quando te vejo sorri-o. Vejo em ti a espontaneidade e pureza que não tenho. As amarras a que estou preso num quotidiano repetido permitem-me, paralelamente ao teu sorriso aberto, sentir que hoje sou livre. Estás na minha mente. Hoje procuro inspiração em ti. Aliás, era importante que a fosses para todos. Sabes porquê? Eu digo. Ouves uma música na rádio, gostas dela e qual é o teu primeiro ímpeto? Dançar. Estejas onde estiveres, com quem estiveres; seja no consultório ou a ver o e-mail, seja a almoçar em família, ou no restaurante, ou no banho ou no supermercado…danças e balanças sem fim. Vem de dentro de ti a "música do coração".Danças sem pudor, sem preconceitos, como se não houvesse mundo em teu redor. E eu?
Eu observo-te e tento acompanhar-te. Gesticulo timidamente. Olho desconfiado a multidão e penso que todos devíamos ser como tu: puros. Hoje vens um pouco triste. Meto conversa contigo e tu, encolhido, apenas olhas para mim. O que tens? - Pergunto-te preocupado. Respondes que não consegues contrariar a passagem do tempo. Envolto por um silêncio perturbador, deixo-te reflectir. Tento entender o teu olhar. Não sei descrevê-lo. Desculpa-me. Partes sem dizer nada e se eras libertação e espontaneidade outrora, hoje representas a prisão dos meus movimentos. Temos pouco tempo para estar aqui. É necessário este trajecto para que um dia possas entender que no teu silêncio, outrora cálido e reconfortante, existem agora palavras sem eco, sem sentido, confusas. Deixaste-me. Deixaste-me aqui, preso ao tempo de ilusões sem cor. Deixaste o teu rasto e energia. Eras incansável. Sabias?
Onde estás?
Tic-Tac. Tic-Tac. Tic-Tac.
É este o som que dizias ouvir sem fim dentro de ti e, que a cada passo que davas, querias pará-lo.Dizias-me em agonia que, dia após dia, estavas farto de tudo… e que tudo tinha um fim… e que nada era eterno…e que a morte era a tua vida…Estás a tremer.
- "Acabou" – dizes-me Deixaste de me ouvir e agora está tudo mais calmo.
Tic-Tac.Tic-Tac.Tic-Tac.
Ecoam em ti os ponteiros da vida. Na brevidade de mais um momento, toco na tua garganta e sinto o teu coração bater mais lento (como o ponteiro dos segundos) e nesse segundo, nesse preciso segundo parou...

Antes de morrer, sussurraste ao meu ouvido, muito baixinho: - "Ouvi dizer que a morte está escondida nos relógios, Martim".

Andrea Lopes

14 Setembro 2006

Pequenas coisas, pequenos prazeres

A maior parte das vezes não vivemos o presente. Vivemos com a mente no futuro ou no passado. E o cérebro não distingue entre passado e presente. Quando trazemos algo negativo à mente, tornamos a vivê-lo uma e outra vez. Devemos desfrutar de cada dia e aprender a dar valor a tudo o que temos: uma cama para dormir, um duche quente para nos lavarmos, um café para saborearmos. Se não soubermos apreciar as pequenas coisas, acabamos sem nada.

Reyes, Maria Jesus
25 Agosto 2006

Sótão de ideias...

Disseste-me que estiveste a arrumar o teu sótão. Que todos devíamos arrumá-lo de vez em quando.
Arrumaste as prateleiras de uma estante complexa - a tua vida.
Ao sabor dessa atitude encontras força para continuar e valorizar a tua simples existência.

Fico agora presa à ideia de Faíza, de que uma nudez "nada tem de erótico" e que deve ter nem que seja um trapinho, para ser sensual...

Ao fundo de uma mesa grande, um grupo de pessoas muito diferente, ouço a voz de um dos seus elementos. Estatura pequena tipo duende, careca e talvez com 60 anos. Levantou a mão e disse "eu não posso, não tenho como vir".
Desse grupo totalmente distinto, outro levanta a mão e timidamente intervém e diz: "apenas consigo ver dez por cento mas tenho uma vida repleta de experiências ricas. Como poderei mostrar-lhe, se não vejo?"
Porque muitos gostam de absorver a realidade observando. Eu faço o mínimo esforço – se o fizer ficarei em breve cego...
Mas vou pensar.

Num fim de dia confessaste-me que era desportista, empreendedora, sociável e rodeada de amigos. Essas eram as suas características essenciais. Faltava-lhe a entrega e devoção de uma amiga verdadeira - dizias. Faltava-lhe a calma e doçura de outra. Mas tinhas a indignação, a força e a sabedoria dela.
Realidades distintas em pessoas que querias unir, fundi-las num só ser. É a que vives e a que sonhas.
Parece-me engraçado, sabias?


24 Julho 2006


Tempo de (des) encontros com o mar e a terra de sonhos perdidos

Tempo de aprender e crescer

Tempo de descoberta e aventura

Tempo de te dizer que te adoro

Tempo de alma num corpo que dança sem fim

Tempo de encontrar e não dizer

Tempo de amar e talvez perder

28 Julho 2006


mil vezes me recordo daquele olhar, que expressavas tão unicamente, iluminado pela luz de uma vela, intercedido pela chama, projectada no meu olhar... aquele olhar
só teu
o teu
naquele que dizias...
só olhando...
como era importante para ti

07 Julho 2006


Vivemos num mundo que excluiu o silêncio. A nossa existência está mergulhada numa bolha de ruído permanente ao ponto de, por vezes, o silêncio se tornar incómodo ou mesmo insuportável, criando a necessidade de o preencher com barulho, sons, palavras. Na sociedade ocidental, o silêncio tornou-se sinónimo de solidão, e a solidão num dos maiores medos do homem moderno. A solidão invoca abandono, tristeza, clausura, isto porque se perdeu o prazer de estar sozinhos connosco próprios, do confronto com o nosso eu mais profundo e íntimo, de nos abandonarmos a nós e ao mundo que nos rodeia. Desde muito cedo a educação faz-se no ruído e mesmo no útero o bebé está já mergulhado num universo sonoro, que tende a ser tanto mais intenso quanto mais ruidosa é a vida da mãe. Curiosamente existe uma relação entre silêncio e equilíbrio, e essa relação estabelece-se logo a nível fisiológico, o órgão que capta o silêncio é também o centro do equilíbrio humano, o aparelho auditivo.

07 Julho 2006


Aprender a viver é não deixar que aquilo que nos acontece ou à nossa volta interfira com o fundo de nós mesmos. É acreditar em nós para lá das carências que temos, para lá das nossas contradições mais dilacerantes. Para isso temos de manter sempre uma certa distância em relação a tudo. É o que dá consistência de eternidade à própria vivência do transitório.


Maria josé Costa Félix


28 Junho 2006

Hoje estive aqui



Almas d'Areosa Cerâmicas pots come in three elegant shapes - Curve, Wave, and Geometric. The Geometric design also comes in three pattern options - stripes, squares, or triangles. Each pot features an array of stylish matte or glossy colors.




19 Junho 2006

Não tenho dois dedos. Uma máquina cortou-os enquanto polia mosaicos.
A minha mulher vê o demónio. Deita-se para o chão e envergonha-me.
Tornei-me alcoólico e se agora me perguntar o que faria se tivesse dinheiro, responderia “comprava comida”.
Ela foi ontem para o hospital. Não sei bem com o quê.
Pode ser que agora me arranjem emprego, a limpar valetas, na junta de freguesia. Pode ligar ao presidente e pedir-lhe. Não se importa?

O que tenho aqui foi o meu marido. Esta cicatriz grande. Vê aqui?
Foi com aquele objecto. Não sei como se diz. Aquele que o miúdos usam na escola para cortar papel.
A minha família incendiou-me a casa e levou todos os meus bens.
Hoje vivo com a minha mãe de 87 anos. Tenho um pequeno de oito.
A partir das 7 não há luz para ninguém. O menino tem medo. Que criança não tem medo do escuro? E se quer um iogurte, ela empurra a porta, entala-lhe a mão e diz “não podes comer, não é para ti”.
Vendo fruta de porta em porta e na praça também. O negócio está mau. E esta carrinha que vê, tenho de a pagar.
Dançar. É o que mais gosto de fazer. Ainda ontem gozei o sant'antónio numa “danceteria”. Tenho que me divertir.
Se ele vier cá para me matar, já lhe disse que o denuncio à televisão ou escrevo uma carta ao presidente da república.

Posso ligar-lhe na 4ª para lhe dizer se tenho ou não cancro?

Nunca sorrio. Porque se sorrio algo de mal me pode acontecer. Assim, decidi, não sorrio. Entende?

17 Junho 2006

Na minha casa...paredes e tectos...

Cor
Contraste
Opção
Equilíbrio
Norte
Diferença
Beleza
Amor
Ternura
Descanso
Arte
Sentido
Hora do comboio
Vizinhança

...Mudança


04 Julho 2006

Evitar o quê?

Privamo-nos para mantermos a nossa integridade, poupamos a nossa saúde, a nossa capacidade de gozar a vida, as nossas emoções, guardamo-nos para alguma coisa sem sequer sabermos o que essa coisa é. E este hábito de reprimirmos constantemente as nossas pulsões naturais é o que faz de nós seres tão refinados. Porque é que não nos embriagamos? Porque a vergonha e os transtornos das dores de cabeça fazem nascer um desprazer mais importante que o prazer da embriaguez. Porque é que não nos apaixonamos todos os meses de novo? Porque, por altura de cada separação, uma parte dos nossos corações fica desfeita. Assim, esforçamo-nos mais por evitar o sofrimento do que na busca do prazer.

Sigmund Freud, in 'As Palavras de Freud'

06 Março 2006

Competência 51: conhecer-se a si próprio

Descrição da situação/experiência:

Estou em constante conhecimento de mim mesma. Em todas as situações de vida, um novo aspecto surge de mim mesma. Sou observadora, pensativa. De todas as situações por que já passei, boas ou más, houve sempre algo que aprendi e me levou para mais “perto de mim”... e dos outros.
Tenho também gosto por ler diversos livros na componente do Auto-conhecimento e área comportamental, que melhor me permitem conhecer a mim mesma e também ao outro.
Digo muitas vezes: “eu nasci para ajudar as pessoas”.
Privilegio o contacto com a natureza, onde muitas vezes reflicto sobre o que fiz, o que falta fazer, o que sou.
Aquilo que gostamos ou não gostamos, diz muito de nós, penso eu...

Amo o meu namorado.
Amo a minha família e amigos (que felizmente tenho muitos e verdadeiros).
Considero-me uma pessoa que gosta muito de ouvir o outro, criar empatia (meter-me na “pele do outro”), sou amiga atenta e preocupada, alimento as relações de amizade com frequência e amor, adoro estar com amigos e família, de sorrir, de me divertir, de ver um filme simples mas que me traga algo de novo, de ouvir música, de ir a concertos de música, sair à noite. Adoro ler e escrever. Adoro viajar com as pessoas que amo. Adoro comer e cozinhar. Ir ao cinema. Ajudar pessoas, dar-lhe carinho e atenção. Ser simpática e bem disposta (raramente estou triste). Penso que sou humilde, observadora, sensível, carinhosa, apaixonada, romântica, optimista, aventureira, empática… Os meus maiores defeitos são: algum conformismo, com pouco sentido de poupança, distraída, alguma ingenuidade (vejo sempre o lado bom das questões e das pessoas, e nem sempre o são). Adoro conversar, ir a esplanadas, ler o jornal, imaginar o que quero vou escrever. Adoro sentir que os que gosto estão felizes, reparo muito nas suas expressões. Gosto de fotografia e de rostos humanos. Para mim o olhar de uma pessoa é, sem dúvida, a sua alma. Gosto de amar e ser amada. Gosto de terminar o dia e dormir como quando era criança. Adoro a areia e o mar. Gosto de água e sol. Gosto de chá verde. Gosto de velhinhos. Gosto de café, cerveja abadia e champanhe asti gancia. Adoro surpreender e ser surpreendida. Gosto de aventura e cheiro a campo. Gosto de margaridas e rosas. Gosto do verde e azul.
Não gosto de ver pessoas tristes e sós. Não gosto de pessoas preconceituosas e que rotulam os outros logo no primeiro contacto. Não gosto de discussões. Não gosto de chuva e dias cinzentos. Não gosto de traições. Não gosto de me sentir incapaz de ajudar uma pessoa. Não gosto de pessoas "azedas", hipócritas e mal dispostas. Não gosto de ligar a televisão e só ouvir desgraças. Não gosto que me mintam…
E isto é só um pouquinho daquilo que sou.

18 Abril 2006

Os benefícios do chá verde!

O chá verde dá mais energia do que a cafeína pura, a bebida faz crescer as taxas metabólicas e acelera a oxidação das gorduras. Os pesquisadores acreditam que a interacção entre a cafeína e outros componentes do extracto de chá verde aumenta as taxas de queima de gordura. Amigo do coração.

Benefícios Fisiológicos e Terapêuticos do Chá Verde (Camellia sinensis):
Segundo pesquisas científicas desenvolvidas na Ásia, Europa e América do Norte,

•Combate o envelhecimento precoce das células;
•Auxilia na regeneração da pele;
•Promove a longevidade saudável;
•Reduz o colesterol total e níveis de LDL (mau colesterol);
•Aumenta os níveis do HDL (bom colesterol);
•Reduz a pressão arterial;
•Actua como anticoagulante intravascular;
•Reduz o risco de enfarte do miocárdio;
•Reduz os riscos de AVC (derrame cerebral);
•Reforça os vasos sanguíneos;
•Reduz os riscos de vários tipos de cancro;
•Fortalece o sistema imunológico;
•Actua como anti-inflamatório e antigripal;
•Ajuda a dilatar os brônquios, facilitando a respiração dos asmáticos;
•Auxilia nos tratamentos de gripe, bronquite e pneumonia;
•Protege o sistema gastrointestinal de bactérias nocivas;
•Auxilia nos processos digestivos;
•Previne a formação de pedras na vesícula e nos rins;
•Ajuda a normalizar a função da tireóide;
•Previne cáries dentárias e gengivite.

21 Abril 2006

Simplesmente





Quero aproveitar este instante porque é verdadeiro.
Penso complexo e escrevo-te...
Sempre escrevi quando estou triste, sabe-me melhor,
Sinto-me melhor, ‘alivia a dor', como escrevia Anne Frank.

Hoje quero dizer-te que te amo.
(como após escrever isto tudo melhora!)
E é tão simples. Já nada mais me interessa.

Apenas que te amo...


07 Abril 2006

Sebastião Salgado







07 Abril 2006

Não me apetece partilhar este sorriso

Possivelmente o último do dia? Talvez. A não ser que as letras que lês envolvam em felicidade os pensamentos...
Nem os olhos riem.
Li o que é o amor. E está tão bem escrito...
As reticências do meu pensamento estão também aqui.
Foram dias em promoção da saúde mental. Ensinar? Motivar? Dominar os assuntos?
Acima de tudo: acordar com entusiasmo porque o dia era certamente iniciado de forma diferente. Personalidades tão distintas com tanta necessidade de atenção e disponibilidade...
Porque não me apetece sorrir agora vou partir. É apenas cansaço? Ou regressar, de novo, aos dias de há pouco tempo atrás? A verdade é que sei que não! Agora é apenas mais um fim de dia, e esse fim de dia é sempre muito idêntico, porque é assim que o transformo, em plena consciência... Posso escolher entre três fins diferentes: ver um filme, visitar irmã ou fazer o que faço sempre... já lhes enviei uma mensagem onde digo que "apetece-me simplesmente não fazer nada"... O engraçado é que o que me impeliu a esta decisão foram os olhos cansados, o desejo forte de chegar a casa e enfiar-me no meu casulo...Tão disponível umas vezes. Pelo amanhecer, quando as forças estão em consonância com o sol brilhantes e pássaros a cantarolar...E por vezes tão previsível e monótona...
"É sempre assim tão simpática e calma?"
"Não sei bem mas penso que sim"
Valeu mesmo a pena, ainda bem!

29 Março 2006

"Nada fica"


Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas -
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.

Ricardo Reis (Fernando Pessoa)


10 Março 2006

O melhor escritor do mundo disse...






Deves pensar em trabalhar o teu interior visto que o exterior não está sob o teu controlo amor.

E deves pensar em mim.

Que te amo.

MUITO!
PARA SEMPRE!

E deves pensar nos momentos lindos que passámos.
E nos que ainda nos esperam...

01 Março 2006

quinta-feira, 1 de março de 2007

Estereótipos




Hilariante!

24 Fevereiro 2006

Com a arma na mão

Agora que partiram, soltei um grito de alívio, um grito em silêncio em que o globo ocular se distendeu e saiu para fora. É tão bom estar sozinha...

O perfume acompanha-me a cada segundo, sinto-o, aqui mesmo debaixo do nariz, Promesse da Cacharel... divino.
Levantei o som da música e olhei de soslaio, "estarei mesmo só?", incrédula.
É por isso que se adiarmos a gratificação tudo tem o dobro do sabor. Milan Kundera falava no acaso e disse que "os momentos que acontecem por acaso são os melhores". Talvez porque não os prevíamos e assim souberam a imprevisível e a inesperado...
Não tenho a certeza se terei feito a melhor escolha. Ontem e muitas vezes, desde que me lembro, acordo a ler palavras soltas e sem nexo, todas elas estão na minha cabeça mas quando encadeadas ficam sem significado. Estarão as palavras constantemente dentro da minha cabeça? Tento interpretá-las como um músico interpreta uma pauta. Parece descabido mas quando acontece sinto-me mais rica, invadida de sabedoria e parece que adivinho o que vem a seguir...
Enfim... (para o que me haveria de dar!)

Estes dias tenho-me sentido como que "anestesiada".
O olhar das pessoas que observo continua a ser o verdadeiro "espelho das suas almas". Nunca (ou raramente) me engano. Observa-se a tristeza, a verdade e a mentira, a dor, a esperança, a saudade, o amor. Vê-se tão bem. É impossível disfarçá-las.

Oiço a MegaFm, a minha preferida.
Pouso aqui e ali o meu olhar cansado e acho engraçada a ideia de quem escreveu as suas maiores manias... Penso nas minhas...
Será a mania algo que faço todos os dias ou com muita frequência e que sei que farei para o resto da minha vida? Talvez...
As que me surgem: assoar-me logo de manhã (!!!), olhar muitas vezes para o telemóvel durante o dia, meter lápis preto nos olhos, beber pelo menos 2 litros de água/dia (a garrafa é a minha fiel companheira) fruta e iogurtes...ler, música, ler, música...

Há pouco, no meio de muitas vidas, eis que sobressai esta frase:
"Passei o meu dia de anos com uma arma na mão, o dia e noite, a olhar para a neve"...

Continuo a dizer: eu sou uma formiguinha no meio destas pessoas!

21 Fevereiro 2006

"O Príncipe sem Sonhos"

Márcio Vassallo, como surgiu a ideia de escrever "O Príncipe sem Sonhos"?

A história nasceu quando, num dos shoppings mais sofisticados, vi um pai comprar para o filho seis brinquedos bem caros. O menino tinha uns oito anos. Mas o que realmente me impressionou não foi a quantidade nem o valor dos brinquedos adquiridos. O que mais me chamou a atenção foi o seguinte: quando o menino começava a namorar um brinquedo, o pai pegava, mandava a vendedora pôr na sacola, e perguntava: "Queres mais alguma coisa, filho?" Ele perguntava de forma carinhosa, mas apressada. Naquele sábado à tarde, esse pai poderia dedicar o seu tempo até para comprar um presente, só que mais próximo do filho. Afinal, brinquedos, livros e animais de estimação têm o poder de aproximar os pais dos seus filhos, para que eles compartilhem belos momentos. Não devem ser meros instrumentos para compensar ausências.

De que modo terminou a cena do shopping?

Diante dos seis brinquedos no balcão, o pai perguntou o valor da compra e assinou o cheque, sem nem olhar para a cara do menino. Enquanto isso, o garoto olhava para as outras crianças, com um olhar meio parado, e via que elas podiam sonhar em ter todos aqueles brinquedos. Elas podiam sonhar com as suas pequenas conquistas. Aquele menino provavelmente não tinha sonhos. Ele não poderia conquistar nada, porque já tinha tudo. Então, para fazer o livro, transformei essa cena em fantasia: "Mal o príncipe começava a sonhar, e pronto: os seus desejos realizavam-se. Não chegavam nem a tornar-se um sonho de verdade, daqueles que nós cultivamos com todo o cuidado, como uma semente preciosa, num jardim secreto, só nosso." E o Tiago tinha tudo: tapetes voadores com piloto automático, dragões de estimação, empregados que o serviam sem raiva... Tinha até o amor dos pais. Mas não tinha sonhos. Bem, pelo menos era isso o que ele dizia, até reencontrar o avô, um sábio bruxo aposentado que vivia longe das badalações do castelo.

Há muitos Tiagos por aí?

Sim, há muitos Tiagos cavalgando pelos shoppings e pelas ruas das grandes cidades. Esses príncipes modernos são crianças que têm os seus sonhos massacrados pela febre do consumismo. E na maioria das vezes esse consumismo é incentivado pelos próprios pais. Na realidade, a posse desenfreada mata as fantasias da infância, estraga o encantamento da espera. As pessoas acabam por confundir ter com ser. E isso tudo provoca uma verdadeira banalização dos sentimentos.

21 Fevereiro 2006

Music


I’m doing it for music, I’m doing it for love, I’m doing it for everyone around me, and I try to be the only one with this melody in my head, but I think I hear this song somewhere. Because I’m doing it for music and I’m doing this for love, I guess I’m doing it for everyone around me.


17 Fevereiro 2006

Perdas inevitáveis

Segundo a pesquisadora norte-americana Judith Viorst, autora do livro "Perdas Necessárias", as perdas que temos durante as nossas vidas não são apenas pela morte das pessoas queridas. Elas incluem, além das separações e partidas daqueles que amamos, a perda consciente ou inconsciente dos nossos sonhos, expectativas impossíveis, ilusões de liberdade e poder, ilusões de segurança e a perda do nosso próprio "eu" jovem. E essas perdas, diz a pesquisadora, são "universais, inevitáveis e inexoráveis, porque para crescer temos de perder, abandonar e desistir". Todas as nossas perdas estão relacionadas com a "Perda Original, que é a conexão mãe-filho, que pode ter reflexos no decorrer de toda a nossa vida. Se as separações não forem bem resolvidas, ressalta, "elas podem deixar cicatrizes emocionais no cérebro, porque atacam a conexão humana essencial: o elo mãe-filho que nos ensina que somos dignos de ser amados. Não podemos tornar-nos seres humanos completos sem o apoio dessa primeira ligação".
Estudos mostram que as perdas na primeira infância tornam-nos mais sensíveis e vulneráveis às perdas que sofreremos mais tarde. "Assim ao longo da vida, a nossa resposta à perda de uma pessoa da família, a um divórcio, à perda de um emprego, podem ser causas de depressão grave - a resposta daquela criança desamparada, desesperançada e zangada", ressalta a pesquisadora.
De acordo com alguns filósofos, a morte é a perda mais aterradora, aquela que acompanha o ser humano desde a infância, quando se descobre o inevitável. À tristeza profunda pela morte, especialmente a repentina e prematura, somam-se outros sentimentos como a culpa e o inconformismo. Não há respostas fáceis para conviver com as perdas provocadas pela morte, mas segundo os especialistas, não se deve ignorá-la, sufocar as lágrimas, nem abafar o luto.
O envelhecimento é também uma das mudanças mais difíceis para o ser humano. Aceitar as perdas provocadas pela idade, requer uma avaliação do passado, que envolve os aspectos positivos e negativos de toda a nossa vivência, e ao mesmo tempo, há de se considerar os desejos e as possibilidades para o futuro. É nesta fase, segundo a pesquisadora Judith Viorst, que a preocupação com a morte e a destruição estão mais presentes, e o homem tem a sensação mais profunda da própria mortalidade e da morte iminente dos outros.A capacidade de mudar e crescer na velhice está ligada à própria história de cada pessoa. Mas, a chegada da terceira idade pode dar origem a novas forças e novas aptidões não acessíveis nos outros estágios.

17 Fevereiro 2006

...perdas necessárias

"As perdas são partes da vida. As perdas são necessárias porque para crescer temos de perder, não só pela morte, mas também por abandono, pela desistência.
Em qualquer idade, perder é difícil e doloroso, mas só através de nossas perdas nos tornamos seres humanos plenamente desenvolvidos.
As pessoas que somos e a vida que vivemos são determinadas, de uma forma ou outra, pelas nossas experiências de perda. Esta compreensão ajuda a ampliar o campo de nossas escolhas e possibilidades.
Todos nós, em princípio, lutamos contra as perdas, mas as perdas são universais, inexoráveis e muito abrangentes em nossas vidas.
E nossas perdas incluem não apenas separações e abandonos, mas também a perda consciente ou inconsciente, de sonhos românticos, ilusões de segurança, expectativas irreais e outras.
As perdas que enfrentamos ao longo da vida, e das quais não podemos fugir são:
- Que o amor dos nossos pais não é só nosso.
- Que os nossos pais nos vão deixar, e que nós vamos deixá-los.
- Que por mais sábio, belo e encantador que alguém seja ninguém tem assegurado casar e " ser feliz para sempre".
- Que temos de aceitar - em nós mesmos e nos outros - um misto de amor e ódio, de bem e de mal.
- Que tudo nesta vida é implacavelmente efémero.
- Que estamos neste mundo essencialmente por nossa conta.
- Que somos completamente incapazes de oferecer a nós mesmos ou aos que amamos, qualquer forma de protecção contra a dor e contra as perdas necessárias.
- Que as nossas opções são limitadas pela nossa anatomia e pelo nosso potencial.
- Que as nossas acções são influenciadas pelo sentimento de culpa incutido em nós pela educação que recebemos.
Examinar estas perdas permite aceitar e modelar melhor os factos da nossa vida. Começar a perceber como as nossas perdas moldaram e moldam as nossas vidas pode ser o começo de uma vida mais promissora e Feliz. "

Judith Viorst

17 Fevereiro 2006

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