quinta-feira, 29 de outubro de 2009


Se ao menos eu soubesse que este sangue, este meu sangue que carreguei até aqui e que agora se derrama, não me roubaria as minhas histórias – se ao menos eu soubesse -, poderia tentar por uma só vez que fosse ser feliz. Talvez pudesse – vocês sabem – aspirar à minha eternidade. Serenamente - penso. Leva-me em rasto lento e cadente os dias, tudo o que agora de mim sai. Mas poderia, meu Deus, não ser tão lenta esta morte que me urde?Que o que se rasga num determinado momento, jamais se volta a unir. Apenas fica. Desfeito – mastigo – para ser esquecido.E continuo aqui; olho para o meu corpo, jogo de pescoço, pernas, braços, mãos e dedos que desfiaram com destreza, mas já não o reconheço de ser encarnado noutro tempo. Pequena rapariga de sonhos gigantes - caramelos que se saracoteavam delicadamente, envoltos num manto de saliva, apenas e só, abrigo de boca desejosa de vida a conhecer. Neste tempo, este que não meço, cada dia desvela uma romaria dolorosa sem lei nem passo certo, e descobre outros dias ancorados, já sem nome ou forma, no pó de um canto recôndito qualquer que não sei saber visitar. E, é assim que os sinto. Escorridos das entranhas.Noutro esgar, não mais sóbrio mas que me atrevo enquadrar, vem até mim a criança que esfolava os joelhos nas calçadas de pedras brancas e polidas, que um sol de Agosto lambia avidamente. Não me sinto cheia, não me concebo e por este solene engano de mim, devo estar a esvair-me.Que o que se rasga num determinado momento, jamais se volta a unir. Afligem-se os cheiros desses dias, dias roubados a uma morte de cristal frágil e silenciosa de sentidos. Estremeço. A minha menina – sussurrava a minha mãe. Mãe - aceno perpétuo deste meu Deus impressão de luz. Por aqui fico à espera. De um prolongamento. De uma corda que se estique. Fico. À espera que numa hora súbita pendurada dos céus, se esgueire a ilusão de cor em ondas vítreas, e que pouco a pouco, a vontade de resgatar a vida, descubra se teriam sabor as lágrimas daqueles que me amavam quando se me chegou a hora de partir. Nunca morri. Apenas cresci. Mas não digam a ninguém porque é segredo e, os segredos são como rios de sombras numa tela perdida de uma parede num lugar qualquer. E lá, lá ninguém mos rouba. Lá... são todos meus.
por Lourenzo Monsanto

quinta-feira, 22 de outubro de 2009



livro apaixonante
"O deus das pequenas coisas"
- Arundhati Roy -

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Exercício: Provocar Suspense

“Uma crise requer acção imediata”

Soube nessa manhã que tinha uma entrevista de emprego; decidiu, depois de ponderar, que queria ir (mesmo estando a trabalhar era importante ir). Apenas disse que no dia seguinte faria o turno da tarde à amiga com quem trabalhava e partilhava um quarto arrendado.
Eram onze da noite, uma estrada escura, um caminho longo, o rádio com música alta; estava confiante, nova experiência, pensou!
De súbito, os sentidos semi-adormecidos despertaram quando viu pelo espelho um rodopiar de luzes muito rentes ao chão. Teve tempo para apenas ver que eram luzes, luzes que deixaram de estar posicionadas no céu para se tornarem um carro a poucos centímetros do seu. O vento no cabelo. O carro e as luzes em fumo. Os brinquedos que saltaram janela fora no asfalto. Ela: apática, inerte, congelada. Chegaram mais carros. Alguém, que não ela, reagiu. Ela não ligou a ninguém. Andou até ao carro. Olhou para as mãos no volante. Uma senhora com um anel laranja, gritou entorpecida “maldita hora que fui àquela entrevista”.

Exercício 2: Mostrar e não apenas contar.

Frase: O Guilherme é doido.

Dá passos tímidos. Ora pára, ora hesita. Retira os óculos e esfrega a comichão imaginária – pensamentos que doem – é a única maneira de os afastar: transformá-los em rituais sofrimento, que o separam de uma vida normal. Ritualiza em números pares o fecho da porta, conta até duzentos.
(Chegava sempre atrasado ao trabalho)
Hoje chamam-lhe doente mental, mas o Guilherme continua todos os dias, muitas vezes ao dia, a não conseguir sair pela porta.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A melancolia é uma tristeza tão subtil que passa por bom senso; e nos permite continuar à varanda depois de terem levantado voo o riso das crianças e o pássaro do amor.
Bartolomeu levanta uma questão interessante - e quando o pássaro volta? Confesso que alucinei sobre ave sem retorno, mas compreendo a dúvida, há amores que regressam. Intocados? Por outros alguéns ou pelo que os levou a deixar-nos? Se por outros alguéns, como reagimos nós? Depende do que sentiram ou fizeram? Nós homens, temos reputação de reagir de forma diversa quando quem amamos conheceu alguém no sentido bíblico do termo:). E no entanto há paixões vestidas, até longínquas!, que modificam - às vezes para sempre... - o olhar de quem volta. Pobres de nós quando nos batemos contra essas rivais - castas na Carne, sem esperança ou desejo de cura para o delírio que lhes rói e salva o espírito.Em outras ocasiões não houve ninguém entre nós e nós. Mas o que fez voar o pássaro, impotente embora para evitar o seu regresso, chega e sobra para o manter em guarda. Contra nós, que porventura o magoámos, mas também contra si mesmo, que baloiça entre o alívio deliciado e faminto por nos reencontrar e uma sensação amarga de cedência, por acreditar piamente que o não merecemos ou amamos bem. Quando existe tal ambivalência, a bonança que sucede à tempestade anuncia nova tormenta...Compreendo a parcimónia de Bartolomeu em face de aves migratórias. E contudo, quantos se podem gabar de nunca ter consultado relógio de pulso ou calendário, na esperança de ver alguém pousar de novo na área bem pouco protegida do seu peito:)?
Júlio Machado Vaz

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Um quarto de hospital, a meio da noite

Ouvem-se os suspiros, que caem com as maçãs que guardaram de mais um pequeno almoço, intercalam-se ora ofegantes ora longos, quase sem ruídos que valha dizer-vos. O ar abafado naquele quarto são todos os inspirares de vinte doentes diferentes, que ali jazem, noite fora.
Saberão que hoje o mendigo à porta desse hospital não sente as mãos de tanto frio?

(1º exercício do curso livre de escrita criativa)
(descrição recorrendo a todos os sentidos menos à visão)

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